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www.mwp-olhao.net/
Jovens ligam Olhão em rede

Boa vontade e antenas nos prédios
Começou por ser uma brincadeira entre amigos. No Verão de 2004, Pedro Sousa (também conhecido por Kry0h nos meandros da Internet), quis ligar o computador do seu quarto à loja de informática de um amigo.
Era um desafio para a tecnologia da altura, pois os dois pontos estavam divididos por uma das principais avenidas de Olhão.
“Fiquei com a pulga atrás da orelha. Inscrevi-me no fórum do Movimento Wireless Português (MWP), fui lendo, fui fazendo testes e adquirindo conhecimento”, conta.
Com um dispositivo então dispendioso (chamado Access Point), um roteador (router) e uma antena, Sousa inscreveu Olhão no MWP – uma iniciativa informal cujo objectivo é incentivar a criação de redes sem fios, um pouco por todo o país.
“No princípio, foi um tiro no escuro, não sabia o que iria acontecer. Fiz uma página a explicar o que era o projecto e vi que as pessoas começavam a aderir e a fazer perguntas”, diz.
Aberta a qualquer interessado, rapidamente a rede cresceu. “Juntaram-se pessoas que gostam de informática, de multimédia, de programação. Criámos servidores de jogos on-line, serviços de televisão interna, e até uma rádio. É que o objectivo disto é simplesmente a partilha de conhecimentos”, explica.
Actualmente, Pedro Sousa reside na periferia do centro da cidade, onde têm instalado o centro de controlo (bridge).
O software de gestão foi desenvolvido pelo próprio e pelo amigo Telmo Bento, jovem informático de apenas 19 anos de idade.
Ao redor, o sinal alcança cerca de 10 quilómetros de distância. O suficiente para cobrir grande parte da cidade com uma rede de 15 antenas trianguladas ao milímetro em pontos estratégicos.
“Contamos com a boa vontade dos condomínios e dos moradores dos prédios que felizmente, perceberam a nossa ideia. Acharam engraçado e deixaram-nos montar e instalar os equipamentos”, conta.
Cada um demora em média 3 a 4 horas a configurar, mas depois de ultrapassados os procedimentos, conseguem funcionar vários anos com autonomia sem necessitar de manutenção.
“Há uma antena num prédio, em que temos de atravessar metade da casa de uma senhora para ter acesso”, brinca.
Internet grátis na Ria Formosa
O chamado wi-fi (abreviatura para wireless fidelity) é uma tecnologia banal nos dias de hoje, incorporada pela maioria dos fabricantes de computadores e gadgets.
Basicamente, permite ligar dispositivos sem fio. Por definição, estas redes operam em frequências de livre utilização pública.
Assim, de acordo com a lei portuguesa para as Comunicações Electrónicas (n.º 5/2004, de 10 de Fevereiro) é possível montar e utilizar estas estruturas sem necessidade de licenças.
A lei apenas define limites físicos na potência máxima de transmissão. Os valores são de 200mW (20dBm) na banda dos 2.4GHz e 1W (30dBm) na banda dos 5GHz.
Ainda assim, esta potência é suficiente para que o sinal do MWP-Olhão chegue forte à Ria Formosa e às ilhas barreira.
Um facto que não passou despercebido aos veraneantes que por aqui passam férias.
“O nosso sinal é várias vezes mais forte que o da Algarvedigital” – diz, comparativamente à rede que dispobiliza alguns hotspots de Internet grátis na região.
Devido aos vários pedidos que começaram a chegar por parte de estrangeiros e até portugueses de passagem, decidiram durante o Verão de 2006 usar a infra-estrutura para oferecer acesso gratuito à Internet.
Actualmente, funciona durante algumas horas por dia, no período de 30 de Maio a 1 de Setembro.
“Chegam a estar 100 a 200 pessoas ligadas a nós. Desenvolvemos servidores e software para definir automaticamente o que os utilizadores podem fazer. Não permitimos acesso a websites de pirataria, nem de conteúdo adulto, nem programas de peer-to-peer”, diz Pedro Sousa, que partilha assim a sua própria linha de banda larga.
“Temos utilizadores de muitas nacionalidades. Os que vêm de barco agradecem sempre imenso o serviço, já que muitos se vêem obrigados a comprar uma Pen 3G em cada país por onde passam. São estas pequenas coisas que nos dão força para continuar. Para eles é uma grande ajuda. Às vezes até nos querem conhecer e pedem-nos conselhos para arranjar os computadores a bordo”.
Sempre sem um único cêntimo vindo de qualquer entidade oficial, todos os custos desta rede são suportados pela generosidade dos seus elementos mais activos.
“Penso que já gastei entre 5 a 10 mil euros neste projecto”, contabiliza Pedro Sousa, o principal impulsionador e entusiasta. “Muitas vezes, questionamos qual o futuro disto. Mas tomei uma decisão. Não quero o nosso investimento envolvido em nenhuma politiquice”, garante.
Cientistas amadores nos montes algarvios
Desde o início que a experimentação é a principal motivação dos fundadores do MWP-Olhão. “Sim, desde que começámos a entender o funcionamento dos princípios electromagnéticos, começámos a desenvolver antenas das mais variadas formas”.
Para além do hardware das lojas, Sousa e Bento criam material variado para potenciar a sua rede sem fios. Nomeadamente, antenas originais e particularmente eficientes – usando materiais como varas de alumínio, pratos de parabólica devolutos, pacotes de leite, latas de fermento e de batata-frita e até frigideiras usadas.
“Antenas que custam entre 200 a 300 euros, nós fazemos por 30 euros”, informa Sousa.
Durante o desenvolvimento da rede, em 2007, “efectuámos um teste em que ligámos o Cerro de São Miguel (São Brás de Alportel) ao Barão de São João (Lagos)”.
“Batemos o recorde nacional. Só com duas antenas, sem amplificadores de sinal, ligámos computadores a uma distância de 76 quilómetros”.
Na experiência, “passámos fotografias, vídeo em directo e até ficheiros através do protocolo FTP”, conta Bento. “Fizemos isto por apenas uma fracção do custo que um sistema destes poderia ter no mercado”, disse.
A proeza está registada em vídeo e disponível no youtube.
O trabalho desenvolvido pelos membros do MWP-Olhão já motivou diversos convites para palestras em escolas secundárias e até em universidades.
Reconhecimento internacional
A nível local, Sousa e Bento, dizem que ainda não viram interesse por parte da autarquia, nem de nenhuma associação local em utilizar a rede.
“É pena, porque poderíamos fazer muita coisa. Disponibilizar serviços e conteúdos, por exemplo. Ou transmitir reportagens em directo. As possibilidades são quase infinitas”, dizem.
Lá fora, são vistos como um exemplo a seguir.
“Já houve pessoas do Brasil que vieram falar connosco para os ajudarmos a desenvolverem redes e a criar comunidades” Com base em variáveis como “a tipologia do terreno, o número de casas e o tipo de dados”, combinadas com fotografias de satélite, “conseguimos fazer um mapa virtual de até onde o sinal pode chegar”, explica. Apesar de usarem alguns programas para o desenho de redes, “a experiência é muito importante”. “As redes sem fios são manhosas. Às vezes, estamos a poucos metros da antena e não conseguimos apanhar o sinal. Temos de perceber porquê. Há muita coisa a ter em conta – os índices de refracção, propagação, zonas sombra.”
Infelizmente, em Portugal, “a maioria das pessoas só se interessam por um projecto deste tipo se tiverem algum proveito próprio. Senão, não querem saber. Não olham ao aspecto tecnológico, nem comunitário da coisa”, lamenta Pedro Sousa, que ainda assim garante que o MWP-Olhão está aí para continuar...







