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As feiras no Algarve

Vidas de velharias

O que não presta para uns é um tesouro para outros. A prova é que as feiras de velharias da região estão vivas e são uma alternativa barata ao grande consumo. Realizam-se normalmente aos Domingos de manhã. Atraem uma fauna de coleccionadores, curiosos, necessitados ou simplesmente pessoas em busca de negócios de ocasião. No meio da quinquilharia há algo para todos. Regateiam-se preços, fazem-se trocas. Mas nem tudo são maravilhas, e as opiniões dos frequentadores dividem-se. Conheça connosco quem faz vida das velharias. Afinal, nem só de hipermercados vive o Algarve…
Bruno Filipe Pires & Natasha Donn, Edição 616 ( 4 Mar 2010), Sem Comentários »
Carlos «Karl Own» Paiva

Veteranos do velho

Muita sopa já passou pela velha terrina de porcelana pintada que Maria Judite Mestre, 61 anos traz nas mãos.

Traz o artigo para nos mostrar que se especializou na venda de loiças e livros.

A tampa não é a original, mas isso é um pormenor que ninguém repara.

“Nos tempos que correm, as pessoas procuram apenas as oportunidades. Antes, quando isto começou, procuravam as velharias, as coisas antigas”.

Na mira, estavam objectos como “os pratos do cavalinho das Louças de Sacavém, o lavatório, a cama de ferro. Hoje, as pessoas compram coisas que precisam, mas desde que sejam o mais barato e irrisório possível”, conta.

“Sabe quem vai hoje às feiras? Muitas vezes são aquelas pessoas de Leste que não trazem nada quando vêm para cá. Compram ali os seus cobertores, os seus tachos. E depois são os coleccionadores”, diz.

Maria Judite traz na voz 12 anos de experiência nas feiras de velharias do sotavento – Almancil, Fuzeta, Quelfes e São Brás de Alportel. Uma actividade que faz na companhia do marido Teodoro de Jesus Guimarães, 66 anos.

Consideram-se “adeleiros”, isto é, pessoas que se dedicam ao comércio de objectos usados (adelo).

Mas nem sempre foi assim. Teodoro é serralheiro civil. Um dos poucos que ainda sabe os segredos da forja do ferro. Uma profissão dura que herdou do pai.

Uma labuta que contava com a ajuda da mulher para vergar o metal quente na bigorna.

Começaram a ir às feiras para comprar coisas. Mas com o decréscimo das encomendas e com o colapso do tecto da oficina, na parte antiga de Faro, as velharias tornaram-se a pouco e pouco parte do quotidiano.

No princípio, “eram os estrangeiros que organizavam as feiras. Depois, isso passou para as autarquias e as Juntas de Freguesia”, conta.

Hoje, os espaços onde vendem são reservados e pagos com antecedência. Os preços são díspares. Um ano em Quelfes custa cerca de 82 euros. Em São Brás de Alportel custa 32,50 euros. Em cada, recebem ainda um cartão próprio passado pela autarquia, caso as autoridades apareçam.

Os domingos de feira começam às 5h00 da madrugada. Cedo, empilham na carrinha os artigos, embalados a granel em caixas de papelão. Quando chegam ao destino, ainda o sol é tímido. Abrem as lonas no chão e organizam a banca. Objectos pequenos à frente, maiores atrás. “Regateia-se bastante. Ontem vendi uma mesa por 20 euros. Só a pedra valia mais do dobro. Pode ser que um dia isto melhore”, diz.

Curiosamente, grande parte da quinquilharia que vendem é oferecida. “Há estrangeiros que quando vão embora ou remodelam a casa dão-nos coisas – quadros, candeeiros, relógios. Mas também há pessoas cujos familiares idosos falecem e nos pedem para ir lá buscar o que quisermos”, diz.

Em relação às pessoas que vão vender “aparecem de todos os lados. Toda a gente tem falta de dinheiro, toda a gente leva coisas para vender. Agora para comprar é que é difícil”, diz.

Com o negócio mau, o que a motiva para continuar é “o convívio. Quer se venda muito ou nada, passa-se uma manhã divertida.”. No próximo Domingo, dia 7, o casal vai estar na Fuzeta. Depois, dia 14, em Almancil.

Caldo de culturas

A barlavento, talvez a mais informal e diversificada das feiras de velharias faz-se em Barão de São João, no concelho de Lagos. É sempre um acontecimento. Há músicos de rua e gente com “rastas” no cabelo. Vêm das comunidades alternativas das redondezas.

As carrinhas começam a chegar um dia antes, e normalmente ficam aqui até segunda-feira. Oficialmente, a feira faz-se no quarto Domingo de cada mês, no parque junto ao Polidesportivo.

O casal Nélia e Rui Pedro, ambos de Lagos estão desempregados. Escolheram o final de Fevereiro para começar a actividade de feirantes com licença.

Acabam de regressar de Espanha. Uma viagem que serviu para comprar alguns dos artigos que têm para vender – vestuário, roupa interior, relógios, sombrinhas.

“Ainda temos que ver o que se vende melhor”, explica Nélia. “Isto é algo que decidimos tentar, pois estamos ambos sem trabalho e nesta situação, ninguém nos apoia aqui em Portugal. O Governo não faz nada para ajudar. Fui despedida do meu último trabalho sem aviso prévio, sem direito a subsídio de desemprego... nada.

Temos quatro filhos a nosso cargo com idades entre os 14, 12, 11 e 5 anos. Não lhes podemos garantir que amanhã terão comida na mesa. Por isso, tínhamos que arriscar, embora eu tenha as minhas dúvidas de que isto vá resultar”.

Entre os vários artigos que o casal estava a vender numa bancada montada por detrás do seu pequeno carro, tinham também camisolas de manga comprida de excelente qualidade. Cada uma custa apenas 5 euros. É difícil imaginar como se faz lucro assim.

Rui Pedro tinha negócios no comércio tradicional em Lagos. “Eu tinha três lojas, mas eles acabaram com Lagos. Mataram a cidade. Já nada funciona. Vi-me obrigado a fechar as lojas, uma a uma. Já não conseguíamos pagar a renda! Agora, resta-nos a esperança que isto resulte”, diz.

Além dos feirantes portugueses, no mercado do Barão de São João há também muitos vendedores brasileiros, franceses e vários ingleses. Um verdadeiro caldo de culturas.

Dave e Emma, um casal de Yorkshire, chegaram ao barlavento algarvio há um mês. Desceram do Reino Unido de autocaravana. Trouxerem um stock de todo o tipo de artigos para vender nos mercados e feiras de velharias do barlavento - malas da Tailândia, peças de joalharia em vidro fundido criadas pelo próprio David.

“Nós gerimos um café num festival de verão em Inglaterra. Esta é a nossa forma de fazer algum dinheiro quando estamos de férias. É uma maneira descontraída de ajudar a equilibrar as receitas com as despesas”.

A artista francesa, Alix concorda que o mercado do Barão de São João é uma “excelente forma de conhecer pessoas”. Vende pinturas, malas em couro, peças de bijutaria e joalharia numa pequena caravana que partilha com o marido e o filho pequeno.

Durante a semana, o casal ganha a vida a trabalhar em quintas de agricultura biológica. Aos domingos, vendem os seus produtos e artefactos nas feiras e mercados. “Não temos muito dinheiro”, brinca. “Mas temos uma vida agradável”.

Palmira Reis e a mãe, Beatriz Glória, ambas de Portimão, marcam presença regular nos mercados do Barão de São João e Aljezur.

“Fazemos isto só para ajudar a trazer mais algum dinheiro para casa”, explica Palmira. “Eu trabalho como contabilista em Portimão, mas as coisas já não estão fáceis. Há tantas empresas a fechar. Preciso de complementar o meu salário”, conta.

Rui é vendedor ambulante na Praia da Rocha nos dias úteis. Nos fins-de-semana vende quinquilharia pelos mercados da região. “É uma forma de sair um pouco de casa”, confessa. “Actualmente, é impossível fazer dinheiro. Hoje, por exemplo, não fiz sequer um euro!”

“Em Espanha, há mercados destes todos os dias. Se aqui também fosse assim, esta forma de ganhar mais alguns tostões faria bem mais sentido – mas não agora, em pela época de crise! No momento, simplesmente vê-se que as pessoas não têm dinheiro!”

Profissionais da velharia

Segundo Liliana Neto, da associação cultural de Vila Real de Santo António, as feiras de Velharias começaram a ser organizadas naquela cidade em 1998. Antes, não existiam no concelho e hoje atraem centenas de pessoas, sobretudo vindas de Espanha.

Contudo, aqui a receita é diferente. Apesar da feira estar aberta à participação do público em geral, está mais vocacionada para os antiquários. Há uma média de 30 expositores. Não se vende roupa, nem calçado, nem electrodomésticos.

Ainda mais restrita é a feira anual de antiguidades no Centro Cultural António Aleixo. Este ano, acontece a 10 e 18 de Julho.

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