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Cinema e audiovisual no Algarve

Algarve é paraíso do documentário

Talvez não o saiba, mas o Algarve é hoje campo fértil para a filmagem de documentários. Nos bastidores da vida da região, há uma série de realizadores, técnicos de imagem, produtores, cineastas, e até ex-jornalistas empenhados em filmá-la. Dos veteranos com estruturas profissionais montadas, aos independentes, cineastas amadores e novos talentos, apresentamos-lhe quem é que está atrás das câmaras e porque querem apresentar as várias faces desta região ao mundo.
Bruno Filipe Pires & Ana Isabel Fernandes, Edição 614 (18 Fev 2010), Sem Comentários »
Para Eduardo Pinto, da «Algarve Film Commission», assiste-se a uma produção crescente de documentários feitos no Algarve. Para esta estrutura, apostada em dinamizar a indústria audiovisual na região, é importante reconquistar um espaço nos cinemas nacionais para este tipo de filmes, à semelhança do que já acontece com os trabalhos do norte-americano Michael Moore.

Há uma cidade perdida nos arredores de Tavira. Já foi das mais vivas de todo o Mediterrâneo ocidental.

É esta história, com mais de mil e quinhentos anos de idade, que José Manuel S. Lopes, 55 anos, profissional com uma vasta experiência no cinema e audiovisual vai trazer de novo à luz do dia.

Falamos da estreia do documentário «Balsa, Memória Flutuante», marcada para o próximo dia 24 de Fevereiro, na RTP2.

Dividido entre Lisboa e Tavira desde 2004, Lopes, rodou este documentário no sotavento algarvio entre Abril e Setembro do ano passado.

A motivação por detrás é o sentimento que “os vestígios desta cidade têm sido destruídos ao longo do tempo”, diz. Os motivos são vários, mas aponta como grande culpado “o desinteresse colectivo pela memória”, lamenta.

Lopes pretende continuar a explorar esta temática.

Um dos seus próximos projectos a rodar ainda em 2010 vai desvendar “a pesca do atum, que marcou a vida da região até ao seu desaparecimento, e que curiosamente em Espanha continua a ser uma actividade rentável”, disse ao nosso jornal.

A preocupação em registar as coisas que o tempo condena lentamente à extinção, também é partilhada por Marco Vilela, 31 anos, responsável da Produtora de Media «Juicylime», sediada há três anos em Albufeira.

Na primavera, a sua equipa vai começar a rodar um documentário de 52 minutos sobre o baixo Guadiana (carregue aqui para ver um pequeno teaser).

“É sobretudo uma abordagem sociológica. Nas margens do rio, as casas continuam a cair e os velhos a morrer. Queremos mostrar a importância que o Guadiana teve na vida das pessoas, e procurar responder se ainda tem alguma”, diz.

O filme terá também um apoio académico, através da colaboração dos docentes Cláudio Torres, ligado à parte do património arqueológico de Mértola, e Conceição Lopes da Universidade de Coimbra.

Por agora o trabalho é financiado pela própria «Juicylime» que tem por intenção, em príncipio, exibi-lo no serviço público de televisão (RTP).

Este Verão, Vilela planeia fazer uma série de projecções públicas por aldeias e vilarejos à volta do rio. Também tem no prelo o projecto «Taxi Latino» (que documenta uma viagem épica entre a América Latina e o Alaska).

E um ‘doc’ sobre a equipa ICE CARE que vai escalar 5 glaciares no mundo (na Suiça, Tanzânia, Peru, Dinamarca e Nepal) entre 2009 e 2012. Uma expedição para dar visibilidade ao aquecimento global.

Os problemas da actualidade também estão na mira de outros documentaristas.

Um exemplo é «A Ilha» de Carlos Fraga, 57 anos. É uma produção da «LivreMeio Produções, Lda.», empresa que fundou em Faro, 2007 juntamente com Helena Madeira.

A estrear em Maio próximo, também na RTP2, canal que absorve por excelência muitas destas produções, vai mostrar as preocupações da comunidade da chamada Ilha de Faro.

O desafio foi lançado por um jovem produtor cultural de Faro, Mauro Amaral, uma vez que a produtora está aberta sugestões do público.

Aqui, o principal problema para mostrar em 54 minutos de filme é a “intranquilidade” que as pessoas sentem relativamente ao POLIS (Programa de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental de Cidades) da Ria Formosa.

Hoje, muitas das casas correm o risco de demolição.

O que trará grandes alterações no modo de vida destas gentes.

No futuro, Fraga refere que tem mais dois documentários no prelo - um dedicado a “uma personalidade algarvia que vive em Estói e que pretende tocar no íntimo o público” e outro sobre o “pioneiro do teatro terapêutico em Portugal e na Europa”.

Em bom rigor, o litoral, com as suas paisagens físicas e humanas parece ser um filão inesgotável de ideias. Sofia Trincão, 44 anos, tem trazido glória ao sotavento algarvio com os seus documentários sobre os pescadores.

O último trabalho, «Praia de Monte Gordo», rodado entre 2005 e 2006, conquistou quatro prémios em festivais internacionais em Espanha, República Eslovaca e Turquia.

O filme mostra um ano na vida do último barco de pesca em madeira no activo.

Desde 2001 que Sofia Trincão filma em cooperação com o espanhol Óscar Clemente. Ainda em 2010, a dupla gostaria de fazer um novo documentário sobre a ilha da Culatra, Faro.

“É uma comunidade muito interessante. Os viveiros da Ria Formosa são as suas hortas. Há uma mulher pescadora que é mestre de um barco. Vale a pena conhecer a vida desta ilha, como a festa da Nossa Senhora dos Navegantes, no primeiro fim-de-semana de Agosto, em que levam uma procissão a bordo, com banda e tudo”, diz.

Apesar de multi-premiada e de ter o seu trabalho reconhecido com interesse no estrangeiro, Trincão, vai ter que lançar-se numa nova busca, a nível local, para financiar o projecto. Que portas se abrirão? Não sabe.

O oceano é o ambiente natural da «Mar de Histórias», produtora de Carlos Vaz e Alexandra Trindade, que soma já 10 anos de actividade. Tem sede em Vilamoura.

Está a finalizar a participação portuguesa num documentário internacional sobre as redes de pesca que são perdidas no fundo do mar e que funcionam como armadilha mortal, contribuindo para a degradação dos ecossistemas.

A ideia partiu de vários investigadores europeus que participaram num estudo sobre este problema.

Em Portugal, o Centro Ciências do Mar da Universidade Algarve e o IPIMAR foram os parceiros envolvidos.

Ainda em parceria com biólogos da academia algarvia, a «Mar de Histórias» está a filmar um projecto que já dura há 4 anos.

Chama-se «Biomares» e é um projecto que transplantou ervas marinhas de outros locais da costa portuguesa para o Portinho da Arrábida (Setúbal), depois de ter sido destruído pela pesca comercial e barcos de recreio.

Em breve, o trabalho dos cientistas portugueses poderá ser exibido em canais como o Discovery Channel.

Outro projecto no prelo é um documentário sobre a reconstrução dos habitats naturais onde serão libertados os linces ibéricos que vivem no Centro de Recuperação perto de Silves - e que agora começa.

Ainda de âmbito internacional há a registar a estreia recente de «Vizinhos – Turquia: O outro lado da Europa», um documentário de 51 minutos da autoria de Vico Ughetto, João Romão e Maral Jefroudi.

Vico, 39 anos, que é natural de Moçambique e está no Algarve há mais de vinte e cinco anos, viu o seu trabalho financiado integralmente pela RTP.

É candidato para um festival de documentários televisivos da Al Jazeera.

É importante ainda referir que durante a nossa investigação demos conta de outros projectos mais pequenos em curso, mas igualmente interessantes.

É o caso do documentário sobre animais abandonados no Algarve, um “problema grave” na óptica de Eric Jaspers, 46 anos. Este técnico de imagem holandês, a trabalhar à varios anos na região, pretende editar um DVD de sensibilização para distribuir nas escolas da região.

Finalmente, Ana Medeira, falou-nos sobre uma série de documentários que está a finalizar para associação In-loco, de São Brás de Alportel.

O objectivo é mostrar exemplos positivos com histórias da integração de imigrantes na sociedade. A editar em suporte DVD, será útil a instituições que apoiam e lidam com esta problemática.

Um caso interessante é “o ferrador de cavalos brasileiro” que percorre o Algarve, e quem sabe, se um dia também terá muitas histórias para contar a um documentarista interessado...

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