PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaEsperança para um Paraíso Perdido?

RIAS procura voluntários

Esperança para um Paraíso Perdido?

O Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa (RIAS), em Olhão, na Quinta do Marim, funciona como um hospital de fauna selvagem. Quase diariamente recebe animais que são encontrados feridos ou debilitados. O objectivo é tratá-los e devolvê-los à natureza. Contudo, para cumprir essa meta, o RIAS precisa de ajuda e está à procura de quem queira deitar mãos à obra. De 13 a 21 de Fevereiro, passe um Carnaval diferente, e participe na semana de voluntariado. São oito dias para renovar as estruturas que poderão ser a última esperança, ou a primeira solução para muitos animais selvagens em risco. Saiba como pode ajudar, porquê e para quê.
Bruno Filipe Pires, Edição 613 (11 Fev 2010), Sem Comentários »
Foto - Thijs Valkenburg

Já dominou o céu. Hoje, é uma água-cobreira vítima de um longo cativeiro.

A pessoa que a tinha, próximo de Mértola, “cortou-lhe as penas para que não voasse”. Veio para o Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa (RIAS) no passado dia 12 de Novembro.

“O que temos a fazer é juntá-la novamente com animais da sua espécie para que se torne de novo selvagem. Muitas vezes, isso não é possível”, lamenta Fábia Azevedo, 25 anos, bióloga.

Frágil e pintado de negro, um ganso-patola tenta livrar-se do petróleo nas patas. Não são apenas os grandes desastres como o do navio «Prestige» que agridem o ambiente.

“Diariamente, os animais são conspurcados e sujos com óleos de motores. Acontece muito aqui no Algarve, nas docas e marinas”, diz a co-responsável pelo RIAS.

Para os ajudar, seria absolutamente necessário “termos água quente” para os banhos. O RIAS ainda não tem esquentador e lança um apelo a quem possa doar um.

Na verdade, são necessidades simples. Solucionadas, fariam uma diferença enorme na vida dos animais que aqui são entregues.

Ainda assim, desde que a associação «ALDEIA» começou a gerir em Outubro de 2009 o ex-centro de Recuperação de Aves da Ria Formosa do Parque Natural da Ria Formosa, as instalações têm sofrido melhorias notáveis.

Só com o trabalho de voluntários e donativos, já conseguiram, por exemplo, estancar a chuva que entrava pelo tecto do edifício principal e devolver-lhe funcionalidade.

Também o edifício onde funciona a clínica, com as várias salas de internamento para animais feridos, ganhou nova vida depois de um longo abandono. Hoje, tem o aparelho de raio-X a funcionar e um biotério (para alimentar, por exemplo, as aves de rapina).

Segundo Azevedo, o que torna o RIAS particularmente especial entre outros congéneres a nível nacional, são os vários túneis de voo no exterior (15 no total). As dimensões permitem receber aves de grande porte – como os grifos que todos os anos “aterram de emergência” um pouco por todo o Algarve.

“São estruturas fundamentais para as aves se exercitarem, antes de serem

devolvidas à natureza. Aí podem desenvolver uma boa musculatura e as técnicas de voo. É também onde (re)aprendem a caçar alimentos vivos (ratinhos)”, explica.

O problema é que apenas um está operacional. A falta de investimento em manutenção e recursos humanos no passado recente, explicam o avançado estado de degradação das estruturas.

As redes para evitar a fuga das aves estão completamente esburacadas. Algumas apodreceram com o tempo. As malhas e cabos à solta são um verdadeiro perigo para todos os seres vivos.

O mato selvagem cresce imparável no interior dos túneis. Para piorar o cenário, as últimas chuvas tornaram algumas destas enormes gaiolas completamente inacessíveis.

Reparar tudo isto é o objectivo principal da semana de voluntariado que decorre durante o Carnaval. Outro, será a pintura de instalações; a construção de uma bancada na área de lavagem; a construção e colocação de poleiros e caixas de abrigo e, finalmente, a limpeza da vegetação.

Na verdade, quem estiver interessado em ajudar poderá fazê-lo em qualquer altura do ano. Para além do voluntariado, todo o auxílio material é bem-vindo.

“Neste momento, precisamos urgentemente de redes. Precisamos de materiais de construção, como tijolos e cimento. E de máquinas de jardinagem. Depois, precisamos de coisas para o dia-a-dia, como toalhas para os animais”, conclui Fábia Azevedo.

“Há animais que não têm força para se alimentarem”

Num dia normal, a rotina desta equipa de quatro pessoas começa às 9h00. Grande parte da manhã é dedicada à alimentação. Luís Jorna, tratador, tem o menu apontado num quadro na cozinha. O frango e o coelho descongelam no dia anterior. É algo parecido a uma cantina.

Carla Ferreira, veterinária em estágio profissional, abre a clínica para fazer os tratamentos diários. Curativos que vão desde a simples mudança de ligaduras, e limpeza de feridas à administração de fluidos (soro e vitaminas), quando os animais estão desidratados.

De Outubro a Dezembro de 2009, o RIAS recebeu 107 animais - aves, texugos, raposas, camaleões, répteis. De Janeiro à data da nossa reportagem, receberam mais 47. Muitos chegaram sem vida, ou não sobreviveram.

Chegam de várias formas, do Algarve e de todo o baixo Alentejo. “Há pessoas que vão passear para o campo e quando encontram animais feridos, trazem-nos”. Mas a maioria vem pela mão dos agentes do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da Guarda Nacional Republicana (GNR), e dos Vigilantes da Natureza.

À tarde, a organização dos trabalhos varia. “Normalmente, aproveitamos este período para fazer as necrópsias”.

Pode parecer bizarro, mas este exame post mortem é muito importante para se determinar porque é que determinado animal morreu e em que condições.

O objectivo é verificar se algo correu mal, por exemplo, durante o tratamento e desta forma “podermos melhorar o nosso trabalho”, explica Azevedo.

Os animais sem vida também podem dar pistas sobre o que está a acontecer na natureza. Um exemplo, são as várias gaivotas que aqui têm sido entregues. Os investigadores suspeitam de uma doença no sistema digestivo.

Quem o diz é Nuno Abrantes, que aproveita ainda os dados para o avanço da ciência – está a fazer estudos de biometria em várias espécies de aves aquáticas.

O impacto da civilização moderna e as suas consequências na vida selvagem também acabam aqui. Na zona de Sagres, um grifo bateu num gerador eólico. “Tinha uma fractura numa asa que foi bastante difícil de tratar e em princípio, será irrecuperável”.

Na realidade, as chamadas energias verdes podem ser limpas, mas nem por isso deixam de causar um grande impacto negativo na natureza.

“É verdade. O Algarve está numa zona de migrações, e em certas alturas do ano, podem sobrevoar Sagres bandos com 600 000 grifos. São aves com mais de dois metros de envergadura, e por isso, colidem com facilidade”.

“E há imensos animais de pequeno porte, desde andorinhas a morcegos que morrem nos aerogeradores e nas linhas de alta e média tensão”, diz.

“Se soubermos onde há um poste onde já foram electrocutadas várias aves, podemos tentar sensibilizar a empresa responsável para fazer melhoramentos nesses pontos negros”.

Neste aspecto, Fábia destaca a avaliação do Impacte das Linhas Eléctricas na Avifauna em Portugal, feito pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

No início do ano, o RIAS iniciou uma base de dados com todas as informações que se conseguem recolher acerca da origem dos animais. Quando são devolvidos à natureza, são anilhados.

Um número de série “permite saber a história de vida do animal”, a sua sobrevivência, a rota que seguiu. O ano passado, foram libertados 29 animais. Actualmente, 24 estão em recuperação. No futuro, com a ajuda dos voluntários, poderão ser ainda mais...

• Abatidos a tiro

Quase todas as semanas chegam animais cheios de chumbo. “Alguns têm que ser eutanasiados. Há casos de aves que nunca iriam ter uma vida digna com as fracturas e lesões que apresentam. Não seria justo fazê-los passar por esse sofrimento”, lamenta Fábia Azevedo.

Apesar de ser ilegal abater qualquer espécie animal protegida (Decreto-Lei nº 316/89 de 22) e de existirem leis reguladoras dos actos de caça que estipulam quais as espécies cinegéticas (“que se podem caçar”) e respectivas épocas e meios de caça, os danos colaterais são por demais evidentes.

Sem querer apontar culpas, Azevedo acha “muito difícil alguém confundir uma águia-cobreira com uma lebre”.

Então, que levaria alguém a apontar uma espingarda e premir o gatilho intencionalmente?

“Normalmente, as pessoas não gostam destas aves de rapina. Acham que são concorrentes na caça, porque comem coelhos e perdizes. Não é assim, porque dão preferência a animais doentes e debilitados. O papel da águia no ecosistema é eliminar possíveis focos de doenças nessa população. Ou seja, se num território, há a presença de uma águia, um caçador deve ficar contente. Significa que ali há alimento para todos.”

Soluções? Para esta bióloga, só apostando na educação ambiental é que se poderão mudar mentalidades.

Artigos Relacionados
Dezenas de aves selvagens em perigo
Edição 645 (23 Set 2010), Sem Comentários »
Edição 586 (30 Jul 2009), Sem Comentários »
Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.