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RIAS procura voluntários
Esperança para um Paraíso Perdido?

Já dominou o céu. Hoje, é uma água-cobreira vítima de um longo cativeiro.
A pessoa que a tinha, próximo de Mértola, “cortou-lhe as penas para que não voasse”. Veio para o Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa (RIAS) no passado dia 12 de Novembro.
“O que temos a fazer é juntá-la novamente com animais da sua espécie para que se torne de novo selvagem. Muitas vezes, isso não é possível”, lamenta Fábia Azevedo, 25 anos, bióloga.
Frágil e pintado de negro, um ganso-patola tenta livrar-se do petróleo nas patas. Não são apenas os grandes desastres como o do navio «Prestige» que agridem o ambiente.
“Diariamente, os animais são conspurcados e sujos com óleos de motores. Acontece muito aqui no Algarve, nas docas e marinas”, diz a co-responsável pelo RIAS.
Para os ajudar, seria absolutamente necessário “termos água quente” para os banhos. O RIAS ainda não tem esquentador e lança um apelo a quem possa doar um.
Na verdade, são necessidades simples. Solucionadas, fariam uma diferença enorme na vida dos animais que aqui são entregues.
Ainda assim, desde que a associação «ALDEIA» começou a gerir em Outubro de 2009 o ex-centro de Recuperação de Aves da Ria Formosa do Parque Natural da Ria Formosa, as instalações têm sofrido melhorias notáveis.
Só com o trabalho de voluntários e donativos, já conseguiram, por exemplo, estancar a chuva que entrava pelo tecto do edifício principal e devolver-lhe funcionalidade.
Também o edifício onde funciona a clínica, com as várias salas de internamento para animais feridos, ganhou nova vida depois de um longo abandono. Hoje, tem o aparelho de raio-X a funcionar e um biotério (para alimentar, por exemplo, as aves de rapina).
Segundo Azevedo, o que torna o RIAS particularmente especial entre outros congéneres a nível nacional, são os vários túneis de voo no exterior (15 no total). As dimensões permitem receber aves de grande porte – como os grifos que todos os anos “aterram de emergência” um pouco por todo o Algarve.
“São estruturas fundamentais para as aves se exercitarem, antes de serem
devolvidas à natureza. Aí podem desenvolver uma boa musculatura e as técnicas de voo. É também onde (re)aprendem a caçar alimentos vivos (ratinhos)”, explica.
O problema é que apenas um está operacional. A falta de investimento em manutenção e recursos humanos no passado recente, explicam o avançado estado de degradação das estruturas.
As redes para evitar a fuga das aves estão completamente esburacadas. Algumas apodreceram com o tempo. As malhas e cabos à solta são um verdadeiro perigo para todos os seres vivos.
O mato selvagem cresce imparável no interior dos túneis. Para piorar o cenário, as últimas chuvas tornaram algumas destas enormes gaiolas completamente inacessíveis.
Reparar tudo isto é o objectivo principal da semana de voluntariado que decorre durante o Carnaval. Outro, será a pintura de instalações; a construção de uma bancada na área de lavagem; a construção e colocação de poleiros e caixas de abrigo e, finalmente, a limpeza da vegetação.
Na verdade, quem estiver interessado em ajudar poderá fazê-lo em qualquer altura do ano. Para além do voluntariado, todo o auxílio material é bem-vindo.
“Neste momento, precisamos urgentemente de redes. Precisamos de materiais de construção, como tijolos e cimento. E de máquinas de jardinagem. Depois, precisamos de coisas para o dia-a-dia, como toalhas para os animais”, conclui Fábia Azevedo.
“Há animais que não têm força para se alimentarem”
Num dia normal, a rotina desta equipa de quatro pessoas começa às 9h00. Grande parte da manhã é dedicada à alimentação. Luís Jorna, tratador, tem o menu apontado num quadro na cozinha. O frango e o coelho descongelam no dia anterior. É algo parecido a uma cantina.
Carla Ferreira, veterinária em estágio profissional, abre a clínica para fazer os tratamentos diários. Curativos que vão desde a simples mudança de ligaduras, e limpeza de feridas à administração de fluidos (soro e vitaminas), quando os animais estão desidratados.
De Outubro a Dezembro de 2009, o RIAS recebeu 107 animais - aves, texugos, raposas, camaleões, répteis. De Janeiro à data da nossa reportagem, receberam mais 47. Muitos chegaram sem vida, ou não sobreviveram.
Chegam de várias formas, do Algarve e de todo o baixo Alentejo. “Há pessoas que vão passear para o campo e quando encontram animais feridos, trazem-nos”. Mas a maioria vem pela mão dos agentes do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da Guarda Nacional Republicana (GNR), e dos Vigilantes da Natureza.
À tarde, a organização dos trabalhos varia. “Normalmente, aproveitamos este período para fazer as necrópsias”.
Pode parecer bizarro, mas este exame post mortem é muito importante para se determinar porque é que determinado animal morreu e em que condições.
O objectivo é verificar se algo correu mal, por exemplo, durante o tratamento e desta forma “podermos melhorar o nosso trabalho”, explica Azevedo.
Os animais sem vida também podem dar pistas sobre o que está a acontecer na natureza. Um exemplo, são as várias gaivotas que aqui têm sido entregues. Os investigadores suspeitam de uma doença no sistema digestivo.
Quem o diz é Nuno Abrantes, que aproveita ainda os dados para o avanço da ciência – está a fazer estudos de biometria em várias espécies de aves aquáticas.
O impacto da civilização moderna e as suas consequências na vida selvagem também acabam aqui. Na zona de Sagres, um grifo bateu num gerador eólico. “Tinha uma fractura numa asa que foi bastante difícil de tratar e em princípio, será irrecuperável”.
Na realidade, as chamadas energias verdes podem ser limpas, mas nem por isso deixam de causar um grande impacto negativo na natureza.
“É verdade. O Algarve está numa zona de migrações, e em certas alturas do ano, podem sobrevoar Sagres bandos com 600 000 grifos. São aves com mais de dois metros de envergadura, e por isso, colidem com facilidade”.
“E há imensos animais de pequeno porte, desde andorinhas a morcegos que morrem nos aerogeradores e nas linhas de alta e média tensão”, diz.
“Se soubermos onde há um poste onde já foram electrocutadas várias aves, podemos tentar sensibilizar a empresa responsável para fazer melhoramentos nesses pontos negros”.
Neste aspecto, Fábia destaca a avaliação do Impacte das Linhas Eléctricas na Avifauna em Portugal, feito pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).
No início do ano, o RIAS iniciou uma base de dados com todas as informações que se conseguem recolher acerca da origem dos animais. Quando são devolvidos à natureza, são anilhados.
Um número de série “permite saber a história de vida do animal”, a sua sobrevivência, a rota que seguiu. O ano passado, foram libertados 29 animais. Actualmente, 24 estão em recuperação. No futuro, com a ajuda dos voluntários, poderão ser ainda mais...
• Abatidos a tiro
Quase todas as semanas chegam animais cheios de chumbo. “Alguns têm que ser eutanasiados. Há casos de aves que nunca iriam ter uma vida digna com as fracturas e lesões que apresentam. Não seria justo fazê-los passar por esse sofrimento”, lamenta Fábia Azevedo.
Apesar de ser ilegal abater qualquer espécie animal protegida (Decreto-Lei nº 316/89 de 22) e de existirem leis reguladoras dos actos de caça que estipulam quais as espécies cinegéticas (“que se podem caçar”) e respectivas épocas e meios de caça, os danos colaterais são por demais evidentes.
Sem querer apontar culpas, Azevedo acha “muito difícil alguém confundir uma águia-cobreira com uma lebre”.
Então, que levaria alguém a apontar uma espingarda e premir o gatilho intencionalmente?
“Normalmente, as pessoas não gostam destas aves de rapina. Acham que são concorrentes na caça, porque comem coelhos e perdizes. Não é assim, porque dão preferência a animais doentes e debilitados. O papel da águia no ecosistema é eliminar possíveis focos de doenças nessa população. Ou seja, se num território, há a presença de uma águia, um caçador deve ficar contente. Significa que ali há alimento para todos.”
Soluções? Para esta bióloga, só apostando na educação ambiental é que se poderão mudar mentalidades.








