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Criminalidade

Insegurança no Algarve, até quando?

A insegurança instalou-se no Algarve. Desde Setembro, ascendem já a sete, o número de assaltos brutais em que as vítimas preferenciais são cidadãos estrangeiros. Falámos com quem tem vivido este drama na primeira pessoa, nas zonas do Sobradinho/Vale Telheiro e Poço Geraldo, a Norte do concelho de Loulé, bastante fustigadas pela vaga de roubos violentos. Um problema que esteve na base da vinda de Rui Pereira, Ministro da Administração Interna à região. Durante uma visita de trabalho que decorreu nos passados dias 22 e 23 de Janeiro, o governante anunciou mais medidas de combate à criminalidade. Contudo, a questão permanece...
Bruno Filipe Pires, Edição 611 (28 Jan 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

Ainda mal tinha escurecido. Passava pouco das 19h00, de 9 de Janeiro. Uma família britânica (ele residente há 25 anos em Portugal, ela há 15) preparava-se para jantar na companhia dos dois filhos menores, de 12 e 13 anos.

“Só me lembro de ter ouvido um “click” no fundo da casa e o ladrar do cão assustado”, contou-nos Sarah (nome fictício). De repente, pelo corredor, surgiram quatro homens encapuçados aos gritos. “Dinheiro, jóias! Dinheiro, jóias!”, berravam.

Entraram na moradia na zona do Sobradinho, Loulé, por uma janela. Armados com gás pimenta, começaram imediatamente as agressões com bastões de basebol e barras de ferro. Sequestraram o casal num quarto, onde trancaram os miúdos na casa de banho. Viraram tudo do avesso. Exigiram cartões de crédito, e pretendiam ir à caixa Multibanco levantar dinheiro. O pesadelo durou mais de uma hora.

Apesar da brutalidade, os agressores não conseguiram abrir a garagem para roubar o carro. Ainda assim, levaram tudo o que puderam – computadores, consolas de jogos, câmara de vídeo e fotográfica, roupas, cerca de cem euros em dinheiro, até as bebidas e as alianças dos dedos do casal.

Após a retirada dos ladrões, conseguiram ligar para o 112. O britânico de 62 anos chegou a sentir-se mal durante o assalto, por sofrer problemas cardíacos – e uma ambulância dos Bombeiros de Loulé foi enviada ao local.

Ainda visivelmente traumatizados pela violência com que viram a sua casa ser invadida, o casal contou ao nosso jornal que, pelo que conseguiram entender, um dos membros da quadrilha era português, os outros dois tinham sotaque brasileiro e o terceiro revelou uma pronúncia da Europa de Leste.

Temporariamente a residir num apartamento próximo de familiares, próximo de Vilamoura, esta família disse-nos que está “nervosa” e tem receio de regressar a casa. Refira-se que na mesma semana, já tinham sofrido uma primeira tentativa de assalto, a 5 de Janeiro.

Contudo, o problema da insegurança ultrapassa nacionalidades. “Vivemos aqui como prisioneiros. Não me posso afastar muito, pois corro o risco de quando voltar ter a casa vazia”, disse-nos João Luís (nome fíctício), pintor português que vive há 9 anos também naquela zona de Loulé. A sua casa fica a escassos metros de onde decorreu o assalto à família inglesa.

“Saímos de uma ditadura para uma espécie de pseudo-democracia, que na realidade é uma anarquia. As consequências estão à vista”, critica. “Considero que a segurança é um direito e não se pode viver assim num país que se diz europeu”, conta, referindo a sua experiência de vida anterior na Suécia, França e Holanda.

A opinião é partilhada pela vizinha Cristina Gasser. Veio da Alemanha para o sul de Portugal em busca de uma reforma tranquila, na companhia do marido, antigo engenheiro informático na indústria automóvel da Baviera. Vivem cá há oito anos. Agora ponderam regressar.

“O que nos preocupa é a violência contra as pessoas. Antigamente assaltavam as casas desabitadas. Agora entram a qualquer altura”, contou ao nosso jornal. “Eles maltratam as pessoas, mesmo que estejam dispostas a dar-lhes tudo”.

Na verdade, em Dezembro passado, dois casais, um de nacionalidade suíça e outro alemã, foram assaltados com brutalidade dentro das próprias casas. O mais violento de todos aconteceu com um casal suíço, na zona de Almancil, em que os ladrões, além de roubarem, violaram a proprietária da casa, uma idosa de 77 anos.

“Os ladrões utilizam muitas estratégias para entrarem nas casas. Põem água debaixo da porta da frente para intrigarem as pessoas. São atrevidos”, diz Gasser.

A solução? “Basicamente, é um problema político, porque faltam meios logísticos e legais à GNR para proteger os cidadãos. Se um agente estragar o carro numa perseguição, tem que pagar o conserto do seu bolso. Isto não acontece em mais nenhum país da União Europeia. Esta base legal é desmotivante para a polícia”, diz.

Por outro lado, o desordenamento do território resultante da (especulação) imobiliária facilita a actividade criminosa.

Aqui, “a lei só permite a construção onde há ruínas”, mas isso não tem sido um obstáculo ao licenciamento de novas obras. “Vi a fotografia da mesma ruína em três projectos diferentes”, conta-nos Gasser.

Aliás, a falta de referências no local e o caos geográfico levou a que um grupo de residentes no Sobradinho tomassem uma iniciativa, que na sua opinião deveria ter sido há muito tomada pelas autoridades competentes.

Desenharam um mapa e numeraram as residências, que estão agora geo-referênciadas por GPS. O mapa foi entregue à GNR de Loulé, em Novembro.

Um mês depois, surgiu o programa “Residência Segura” do destacamento territorial de Loulé que inclui reforço das patrulhas, e uma linha telefónica directa de emergência.

Ainda assim, muitos dos residentes já colocaram as casas no mercado. Há placas a dizer “vende-se” por toda a parte. “O que acontece é que as pessoas sentem-se desesperadas. Por um lado, não conseguem vender as moradias para fugir ao crime. Por outro, vivem com medo e sentem-se ameaçadas”, conta Gasser.

E se no passado recente, a construção floresceu, hoje o fenómeno é inverso. José Manuel Pereira, empresário local com interesses na construção civil, vê o futuro incerto. “Tenho um imóvel para construir no sítio da Alcaria/ Poço Geraldo e não sei se vai avançar”, disse-nos. “Todos os dias vejo a tristeza daquelas pessoas, que estão indefesas. Vieram para cá porque sabem que este é um país de sol e gente acolhedora. Sabem que não há tradição nos portugueses de baterem e matarem nos assaltos. Só quem vem de países onde a realidade social é muito difícil é que utilizam esses métodos bárbaros”, disse, referindo-se à livre circulação de pessoas dentro da Europa. “Só que hoje, vivemos um momento em que não sabemos quem vem por bem e quem vem por mal”, conclui.

“Portugal vai perder muito, porque estas pessoas vivem cá. Muitas trabalham e empregam portugueses. Seria melhor que o Governo em vez de investir em projectos de luxo, investisse na formação de mais polícia e em dar-lhes os meios que necessita”, finaliza Gasser.

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