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Biotério da Universidade do Algarve

Algarve na vanguarda da biomedicina

São às centenas e vivem num ambiente cirúrgico, onde o ar é filtrado e a temperatura constante. Conhecidos por “ratinhos” de laboratório, os animais do Biotério da Universidade do Algarve (UAlg) são utilizados na investigação do Centro de Biomedicina Molecular e Estrutural (CBME) – onde já decorrem vários projectos de pesquisa nas áreas da medicina regenerativa e desenvolvimento embrionário. O Biotério foi inaugurado em 2006, como aposta a médio prazo para atrair investigadores e projectos no âmbito das ciências da saúde à academia algarvia. Num futuro próximo, uma cura importante poderá sair daqui…
Bruno Filipe Pires, Edição 610 (21 Jan 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

“A cura não estará num destes ratinhos. Mas várias curas vão depender da investigação feita por várias equipas ao longo de vários anos nestes animais”. Quem o diz é José António Belo, Professor Associado da Universidade do Algarve (Ualg), Investigador Principal do Centro de Biomedicina Molecular e Estrutural (CBME), e director do biotério da Ualg.

No biotério algarvio, há apenas uma espécie de ratinho – Mus musculus – que mede cerca de 5 a 10 centímetros de comprimento do corpo e tem uma pequena cauda.

“São digamos, os animais de eleição para o trabalho de laboratório. Com eles é possível fazer um leque muito grande de experiências – desde investigações sobre o desenvolvimento embrionário, experiências de manipulação genética, a testes de drogas e fármacos e terapias celulares”, explica José Belo.

O biotério tem capacidade para 10 mil animais. Neste momento, está a menos de metade. Actualmente, cerca de 20 a 30 investigadores têm acesso. Mas a tendência é para aumentar a médio prazo.

“Ligado ao curso de medicina, decidimos criar um programa de investigação em Medicina Regenerativa”, para o qual os ratinhos são o animal modelo de eleição.

As regras para aceder ao interior do biotério são rígidas. A porta tem uma fechadura electrónica, tipo cofre de alta segurança. Só se entra depois de se passar por tapetes autocolantes que retiram o excesso de pó das solas dos sapatos. É preciso vestir bata, colocar protecções nos pés, máscara cirúrgica, touca no cabelo e luvas.

Nas duas salas de armazenamento de animais, tudo é controlado ao pormenor: a temperatura (24º centígrados), a humidade, a qualidade do ar e a intensidade da luz, sendo até simulados os ciclos diários e nocturnos.

Em termos de cuidados de manutenção, as gaiolas são esterilizadas e precisam ser trocadas uma vez por semana. Algumas têm filtros especiais para impedir a passagem de micróbios (as chamadas IVC -Individual ventilated cage for mice). Protegem, por exemplo, ratinhos cujo sistema imunitário tenha sido enfraquecido deliberadamente para uma determinada investigação.

Os ratinhos têm um ciclo de gestação de cerca de 3 semanas. Nascem e ao fim de dois meses estão na idade adulta e maduros sexualmente. A longevidade raramente ultrapassa os seis meses, embora possam viver até um ano e meio.

Cada gaiola está etiquetada com vários dados úteis. Alguns dos ratinhos que ali estão armazenados já foram geneticamente manipulados. A utilização de animais “mutantes” - aos quais lhes foi, por exemplo, retirado ou alterado um gene - é importante para perceber o desenvolvimento embrionário de órgãos específicos como o coração ou o cérebro.

“Se soubermos quais são as células que vão dar origem a determinado órgão, e que genes estão envolvidos, um dia, usando as células estaminais em cultura poderemos direccionar o seu desenvolvimento para vários órgãos do organismo”, explica José Belo.

De acordo com o director do biotério, há ainda a decorrer no CBME investigações focadas no cancro (oncobiologia). E outros projectos que têm a ver com terapias de genes na retina - para tentar devolver a visão. Também o tratamento da doença de Alzheimer solicita os ratinhos algarvios.

A maior parte dos procedimentos são feitos numa pequena sala de trabalhos, dentro do biotério, para onde os animais são levados sempre que se vai conduzir alguma experiência, sendo anestesiados, para lhes causar a mínima dor possível. Durante a nossa reportagem, podemos assistir à colheita de embriões.

Contudo, quais são os limites da ética? “É claro que os animais têm que ser tidos em consideração. Hoje em dia, todas estas experiências estão devidamente autorizadas.

Primeiro, por uma comissão de ética interna. Depois, cada investigador tem os seus projectos autorizados, de uma forma mais lata, pela Direcção-geral de Veterinária que é a entidade em Portugal que coordena e regulamenta as experiências feitas com animais”, explica.

À luz da lei portuguesa, as normas técnicas de protecção dos animais utilizados para fins experimentais e outros fins científicos estão estipulados pela Portaria n.º 1005/92 de 23 de Outubro.

Aqui, os investigadores têm que preencher uma série de formulários, indicando o que pretendem estudar com os ratinhos. “Tem de justificar quais os processos que vão utilizar para sacrificar os animais, para que é que os vão usar, quantos animais estimam usar por ano”, entre outras variáveis.

Por outro lado, “há normas e regulamentos sobre a forma como os animais têm de ser mantidos no biotério. Há um certo grau de desconforto que está claramente regulamentado e que não se pode inflingir ao animais”, acrescenta.

Nas aulas dos cursos, precisamente devido à preocupação com os direitos dos animais, “a tendência é cada vez mais não autorizar demonstrações com ratinhos. São seres vivos e no fundo, queremos apenas utilizá-los para uma causa que é o avanço da ciência. Há uma grande pressão internacional para que não sejam usados em aulas práticas. Isso, cada vez mais, não.”

De acordo com José Belo, a investigação que começa nestes animais, poderá mais tarde passar para primatas. E só depois poderá avançar em seres humanos.

“A questão é que, como há uma grande conservação em termos evolutivos entre os genes e proteínas nos processos que fazem os ratinhos e nos que fazem os seres humanos, nós podemos usar estes animais numa fase inicial dos estudos. Depois, quando temos conclusões, podemos começar a pensar em como transpô-los para os seres humanos”, explica.

Para além de José Belo, a equipa do biotério engloba apenas mais duas pessoas - Sara Marques (gestora) e Neusa Miguel (tratadora). Existe ainda um veterinário designado que é responsável pela saúde dos animais.

Duas vezes por ano, os chamados “ratinhos sentinela” são enviados para um laboratório independente, onde são examinados e se fazem testes de despistagem de doenças, vírus, e dezenas de contaminantes possíveis. Um procedimento que permite certificar a segurança sanitária, segundo as normas internacionais. Isto porque o biotério está em permuta com outros congéneres do mundo e a UAlg já exportou ratinhos até para o Japão.

O biotério foi um investimento co-financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian (patrocinador maioritário) e pelo Banco Totta Santander. Custou cerca de meio milhão de euros.

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