PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 835
2014-07-24 > 2014-07-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesPublireportagemO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaFramboesas algarvias no Natal da Europa

Hortofruticultura no Algarve

Framboesas algarvias no Natal da Europa

Há framboesas e morangos do Algarve nas mesas de Natal da Europa do Norte. Produzidas em estufas espalhadas pelo sotavento, estas frutas vermelhas de qualidade superior, viajam directamente da organização de produtores «Madrefruta» até às prateleiras dos supermercados da Holanda, Noruega, Suécia, Bélgica, França e Inglaterra. Conquistaram um lugar ao sol num mercado exigente e provam que a agricultura algarvia pode ser uma aposta sustentável e lucrativa para o futuro.
Bruno Filipe Pires, Edição 607 (23 Dez 2009), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

É um modelo do que de melhor se faz na agricultura algarvia. Chama-se «Quinta das Valsas» e fica escondida nos arredores da Luz de Tavira. É aí que Pedro Vaquinhas, 34 anos, engenheiro agrónomo, gere uma das mais modernas e tecnologicamente avançadas produções hortofrutícolas da região.

Numa sociedade de costas viradas para o sector primário, este jovem empreendedor diz que não hesitou em dedicar-se à agricultura. “Costumo dizer que casei a paixão ao negócio”, brinca.

Pedro Vaquinhas candidatou-se ao Programa de Desenvolvimento Rural do Continente (PRODER), e investiu cerca de um milhão e 200 mil euros na criação da empresa «Agrivabe» para produzir os pequenos frutos vermelhos.

Em Julho de 2008, tudo ao redor era mato. Precisou apenas de sete meses para erguer de raiz toda a infra-estrutura – uma sofisticada estufa em metal, com cerca de 2 hectares.

Encontrar um terreno por um preço justo foi o mais difícil. “Por causa do turismo, em média, o preço de mercado por hectare é 25 mil euros mais caro do que o seu real valor”, diz.

No interior da estufa, crescem morangos pelo método da hidroponia (sem solo), cultivados em prateleiras que ficam ao nível da cintura (o que facilita a colheita dos frutos). Esta vai ser a sua segunda colheita de morangos e a primeira colheita de framboesas. Os morangos foram plantados no passado dia 24 de Outubro. São cerca de 142 mil plantas. Crescem numa mistura orgânica de substratos de trufa, casca de pinheiro e fibra de coco. “Só precisam de água com nutrientes para crescer. É um método menos poluente que a agricultura tradicional no solo, que precisa até 40 por cento mais adubo”, explica.

Nesta campanha, espera produzir 85 mil quilos. O número parece elevado, mas diga-se que os custos de produção rondam os 90 mil euros ao ano. Depois de empacotados em caixas de 400 gramas, os morangos seguem para os supermercados internacionais como o «Sainsbury», em Londres, com a indicação «class 1» no rótulo, ou seja morangos de luxo.

Ao lado, crescem as framboesas. São mais de 10 mil plantas, divididas em 6 sectores, com 3000 m2 cada um. Têm um ciclo produtivo de quatro a seis meses, o que corresponde ao período entre Dezembro e Julho, aproximadamente.

Durante o Verão, não há exploração devido às elevadas temperaturas e a baixa humidade relativa do ar. Por outro lado, neste período, os produtores do norte da Europa conseguem também produzir e alimentar o circuito comercial.

Em média, cada framboesa pesa entre 6 a 10 gramas. São cuidadosamente colhidas à mão. E colocadas uma a uma em pequenas caixas transparentes de 125 gramas. “Uma das características deste produto é que só é manuseado pelo produtor. O consumidor tem a garantia que ninguém mexeu no fruto”, explica Vaquinhas.

“Estes são processos de produção muito rigorosos. Qualquer consumidor pode facilmente saber o historial de cada embalagem – de onde vieram e até quem colheu os frutos”, diz. Nesta campanha, a meta expectável são 13 a 14 toneladas de framboesa. Trabalham aqui entre 10 a 25 pessoas, conforme a necessidade.

A temperatura interior está em média 3 graus mais quente que no exterior. Não há sujidade, nem produtos perigosos. O agricultor utiliza um arsenal de armas biológicas para combaterem as pragas que atacam os frutos. Aranhas, abelhas, zangões polinizadores e outros bichos substituem pesticidas. “A própria indústria tem respondido à necessidade de alternativas aos químicos”, explica-nos enquanto examina um frasco de repelente de insectos natural à base de alho.

A sua exploração é visitada regularmente por pessoas de todos os cantos de Portugal. Muitos ambicionam tornarem-se também produtores. Concorrência? “Não, vejo-os como potenciais parceiros de negócio. Repare, eu sozinho não era nada. Mas fazendo parte de uma organização de produtores como a «Madrefruta», temos uma estratégia comum que está aberta a quem quiser. Basta seguir as regras”, diz.

Vaquinhas é um optimista e acredita que o caminho a seguir é a internacionalização da fruta algarvia. “Temos no Algarve condições excelentes para a produção hortofrutícola. Se formos pelo caminho da qualidade, podemos passar facilmente a ser os melhores da Europa”, afirma.

Crente no potencial das “culturas próprias” da região, plantou figueiras (lampa preta) no terreno com o objectivo de atingir também o mercado externo. “Na Europa do Norte, o figo é considerado um fruto tropical”…

A Madrefruta

Com a abertura das fronteiras europeias, a agricultura algarvia deparou-se com uma forte concorrência. Ao passo que outros países do sul da Europa se modernizaram, faltou visão estratégica para o Algarve, que produzia frescos para todo o país. A política agrícola seguida foi o continuar com estruturas de produção precárias – por exemplo, as estufas de pau de eucalipto e plástico - que hoje vemos abandonadas.

“Nunca houve um plano estratégico para a horticultura do Algarve”, lamenta Humberto Teixeira, engenheiro agrónomo e um dos responsáveis pela organização de produtores «Madrefruta».

Ao mesmo tempo, a Espanha invadiu o mercado português com frescos de segunda categoria e baixo preço. Depois, o aparecimento das grandes superfícies comerciais com as suas lógicas de mercado liberais deu o golpe de misericórdia na maneira tradicional de negociar de muitos agricultores.

É neste contexto difícil que nasce a «Madrefruta» em 1996. “Basicamente, é uma estrutura de comercialização profissional e organizada que permite escoar a produção dos sócios”, explica.

Arrancou com mais de 30 produtores, de tomate, meloa, pimento, feijão verde e pepino. Progressivamente, todas estas culturas foram perdendo competitividade. Hoje, resta apenas o tomate, e tem os dias contados. Assim, “começamos a pensar no que poderíamos fazer para sermos competitivos no futuro”. A necessidade de melhorar as estrutura e adoptar novas culturas foram algumas das soluções encontradas. A produção por hidroponia levou 6 anos a desenvolver.

Actualmente, a «Madrefruta» compreende 200 hectares de estufas dispersas. Um número pequeno quando comparado com Espanha que tem hoje 6000 a 8000 hectares dedicados aos morangos e framboesas. Contudo, Teixeira não ambiciona a produção massiva e industrializada do país vizinho. O objectivo é triplicar a produção actual para atingir uma melhor sustentabilidade económica. “Se tivéssemos 500 hectares, isso teria um impacto muito grande na nossa região”, considera.

Quando? “Não o sei dizer. Estamos há cinco anos sem receber qualquer incentivo ao investimento. Tudo o que temos feito tem sido com os nossos meios, a nossa capacidade de endividamento”, diz. Ainda assim, a «Madrefruta» prevê-se ultrapassar este ano as 200 toneladas de framboesa, e tem em curso ensaios para produzir amora já em 2011.

Artigos Relacionados
Retomar a tradição vitivinícola
Edição 804 (27 Nov 2013), Sem Comentários »
João Calças, Olhão
Bruno Filipe Pires, Edição 749 ( 3 Out 2012), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires, Edição 672 ( 6 Abr 2011), Sem Comentários »
Made in Algarve
Bruno Filipe Pires, Edição 657 (15 Dez 2010), Sem Comentários »
Agricultura moderna é bom negócio
21 Mai 2009 00:00, Sem Comentários »
Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.