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Passageiros do vento

Balões a barlavento

Levantam voo na parte baixa de Monchique. Sempre antes da alvorada. A azáfama para montar o balão demora apenas alguns minutos e conta com a ajuda dos passageiros, ávidos de aventura. Depois, é subir até aos cinco mil pés de altitude, onde o nascer do sol com o mar no horizonte e a serra debaixo dos pés é um espectáculo indescritível. Ainda há tempo para ver javalis e outros animais selvagens sob o voo silencioso e tranquilo do balão. Quem o diz é Helena Sá, piloto de balões. Helena Sá, 42 anos, é a única mulher a voar balões em Portugal e está no Algarve a oferecer viagens ao céu. Chegou há 3 anos, mas só agora é que está a desbravar este nicho inexplorado na oferta local de desportos na natureza. Ainda assim, já fez cerca de 100 voos pelo barlavento algarvio e 200 no Alentejo. Também já atravessou Portugal inteiro de balão – que considera o país mais bonito da Europa para a prática deste tipo de voo. Fomos descobri-la no Aeródromo Municipal de Lagos, onde está a sede da sua linha aérea – a «Barlavento Balloons».
Bruno Filipe Pires, Edição 600 ( 5 Nov 2009), Sem Comentários »

Bem disposta e com um ar descontraído, ninguém imagina que Helena Sá é uma aviadora. Talvez até o termo não lhe sirva bem, pois conquista os ares de forma pouco convencional, sem asas nem motores.

Começou no balonismo na África do Sul, onde nasceu, filha de pais portugueses. Tinha então 23 anos. “Estava a trabalhar num hotel e havia um vizinho que voava balões. Um dia, convidou-me para trabalhar com ele e foi assim”, resume uma biografia que já soma quase metade da vida no céu.

A viver na Alemanha até recentemente, Sá veio para Portugal para participar numa prova de balão. Acabou por ficar. Agora, tenta conciliar a instrução que dá a futuros pilotos de balão um pouco por toda a Europa, com o seu novo negócio – a «Barlavento Balloons» - cuja frota é apenas um balão e só leva até quatro pessoas de cada vez, em voos de uma hora. Pedimos-lhe para nos contar como é voar ao sabor do vento.

O primeiro requisito para ser um passageiro do vento é madrugar. Bem cedo. Isto porque “os balões não voam com situações térmicas, que acontecem, normalmente duas horas depois do sol nascer”, explica. Não há grandes limites, embora não se aconselhe este desporto a mulheres grávidas e crianças menores de 7 anos.

Antes de cada descolagem, Helena Sá analisa cuidadosamente a meteorologia, e as condições atmosféricas para uma viagem em segurança. Primeiro, o balão é cheio com ar frio, com a ajuda de uma ventoinha. Só depois é aquecido com os queimadores de gás propano. Em média, o ar no interior do balão está cerca de 100 graus centígrados mais quente que a temperatura exterior.

No Algarve, o vento sopra normalmente norte/ noroeste, em direcção ao mar. Contudo, “a diferentes altitudes, temos diferentes ventos. O desafio é encontrá-los, e com a sua ajuda, guiar o balão ao local onde queremos chegar”, explica. A velocidade máxima de subida é cerca de 400 pés por minuto.

Cada vez que sobe ao ar, Sá e os passageiros são sempre seguidos atentamente por uma equipa de resgate. Isto é, um jipe que em terra persegue o balão durante todo o trajecto até à aterragem… que nunca se sabe exactamente onde será. Já com os pés assentes em terra é tradição, “beber-se uma taça de champanhe para comemorar o facto de se ter sobrevivido ao voo”, brinca.

Para Helena Sá, os riscos são mínimos, embora o Algarve não tenha as melhores condições possíveis para este desporto.

“Não são das melhores, por causa da geografia e do vento. É preciso ter bastante experiência”, diz. Para além das condicionantes naturais, a influência humana no terreno também não ajuda. Desde gruas, a postes eléctricos, prédios e todo o tipo de obstáculos e lixo espalhados pela paisagem algarvia, dificultam a operação dos balões na região. Helena Sá prefere o Alentejo, que tem potencial para ser, por excelência, a capital europeia deste desporto.

Na aeronáutica, o balão é considerado uma aeronave, “embora um bocadinho mais vagarosa”. Tem matrícula, como qualquer avião ou helicóptero. E partilha até alguns equipamentos básicos como o rádio para as comunicações, a bússola, o GPS e o transponder – dispositivo que permite a identificação de uma aeronave pelo radar. Quando a detectam no céu, os controladores aéreos “ficam atrapalhados, porque não estão habituados”.

A proximidade ao aeroporto de Faro, não é um obstáculo, desde que o voo se faça nas áreas permitidas.

Para se tornar piloto de balões, é preciso tirar uma licença (brevet), tal como acontece para qualquer aeronave com motor. Para ter esta habilitação comercial é necessário um mínimo de 75 horas de voo. “Parece pouco, mas se pensarmos que só é possível voar uma vez por dia, ao amanhecer, exige muito trabalho”.

Um balão, normalmente feito de um nylon especial, com capacidade para 4 passageiros e um tripulante custa entre 25 a 30 mil euros. Tem uma vida útil de apenas 300 a 400 horas de voo. Talvez um pouco mais, se for estimado com cuidado. O cesto continua a ser de verga, material leve e super resistente (mesmo no caso de ir contra uma árvore). “Ainda não conseguiram inventar nada melhor que isto”, brinca Sá.

Existem várias fábricas na Europa, mas as principais estão no Reino Unido, onde este desporto é bastante popular. Espanha também tem uma marca que se está a afirmar, assim como a República Checa.

“O balonismo sempre foi popular. Demorou foi a chegar a Portugal e neste momento, devemos ser cerca de 10 pessoas a praticá-lo. É um desporto muito caro e não é fácil. Não é como entrar num avião e começar a voar. Exige tempo, paciência e muita dedicação por parte do piloto. Além disso, também exige apoio da família e amigos, pois não é algo que se consiga fazer sozinho”.

Actualmente, o custo do voo ronda os 165 por pessoa. Helena Sá considera que apesar de dispendioso, é uma experiência única. E que também pode ser um óptimo presente de casamento. Talvez para acompanhar o champanhe, no final…

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