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Edição 781
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Rita Domingues

Minimalismo, vida simples e férias em casa

Imagine que um dia decide livrar-se de tudo o que não precisa. Pode começar por toda a tralha que tem em casa, até só restar o essencial. E depois disso, aplica o mesmo princípio de simplificação a todas as áreas do seu quotidiano. É assim o minimalismo, um estilo de vida divergente da sociedade de consumo que conta com cada vez mais adeptos. Quem o diz é Rita Domingues, 33 anos, mãe de duas crianças, investigadora científica na Universidade do Algarve e autora do blogue «The Busy Woman and the Stripy Cat» - um dos 100 mais lidos na blogosfera portuguesa. Em entrevista, Rita Domingues conta-nos como tem vindo a contribuir para uma mudança de mentalidades com as suas dicas de como simplificar a casa, a vida familiar, a vida profissional, o tempo, as rotinas, e até as finanças… sempre com o minimalismo como pano de fundo.
Bruno Filipe Pires, Edição 735 (28 Jun 2012), Sem Comentários »

Fale-nos um pouco do seu blogue…

Rita Domingues: É o meu quarto blogue em três anos. Já tive um sobre costura e outro sobre dicas de organização. Tive também um sobre questões ambientais. Mas nenhum deles definia o que sou, pois tenho interesses muito eclécticos. Criei o «The busy woman and the stripy cat» numa altura em que senti necessidade de escrever em inglês, embora já não o faça. O nome é uma homenagem a um gato que tive durante 10 anos. Comecei a publicar sobre assuntos mais variados e entretanto descobri o estilo de vida do minimalismo. E quando comecei a direccionar o blogue mais nessa vertente, e a falar da gestão do tempo, produtividade, gestão da casa, sempre com o estilo de vida minimalista por detrás, vi que começou a ter uma grande aceitação.

Tem uma ideia do tráfego?

Sim, anda à volta das 2 000 visitas diárias. Mensalmente, ronda as 60 000 visitas. Também recebo muitos contactos de leitoras.

Leitoras porque a organização doméstica continua a ser uma tarefa maioritariamente feminina?

Parece que sim. Recentemente fiz um inquérito para conhecer os meus leitores. Já tive quase 1 000 respostas ao questionário, ainda não analisei os resultados a fundo, mas a percentagem de leitores do sexo masculino é de 2 a 3 por cento.

Como é que define o minimalismo?

O estilo de vida minimalista consiste em identificar aquilo que é essencial e eliminar o resto – isto em todas as áreas da vida. O problema do minimalismo é que o essencial varia de pessoa para pessoa. É algo muito pessoal. Cada um é que saberá determinar o que é essencial para si, e o que não é. Não podemos avaliar isso nos outros, só em nós próprios.

Dê-me outro exemplo…O que distingue o minimalista do resto das pessoas é que nós conseguimos dizer não. Isso foi das maiores alterações que fiz em mim. O minimalismo estabelece prioridades, o que é mais importante para nós. Tudo o que não se encaixar nessas prioridades, recusamos, porque não vai trazer valor à nossa vida. É uma recusa intencional, consciente de tudo aquilo que não precisamos.

Isso vai contra muitos valores da sociedade actual…

Sim. O minimalismo tal como o conhecemos hoje, nasceu nos Estados Unidos, baseia-se no budismo e numa estética japonesa chamada wabi sabi - que era uma estética baseada em elementos decorativos naturais, mobiliário funcional, não ter ornamentação e apenas o fundamental. O minimalismo que conhecemos hoje nasceu na internet, nos blogues, como resposta ao consumismo desenfreado tão característico dos americanos.

Um dos primeiros que foi criado sobre este tema chama-se «zen habits». Curiosamente, a maioria dos blogues sobre minimalismo naquele país são escritos por homens.

Uma ideia que os minimalistas defendem é livrar-se de tralha que se acumula em casa de modo a libertar tempo com as tarefas domésticas. Mas muita gente resiste por motivos sentimentais, certo?

Claro. A melhor coisa que o minimalismo nos traz é tempo. Eu agora perco menos tempo com a casa, porque tenho menos coisas para limpar, arrumar e organizar. E faz-me muita confusão, parece que as pessoas precisam de ter objectos para se lembrarem de momentos bons, ou de familiares. Acho que as recordações estão na nossa cabeça. Não nas coisas! Pelo feedback que tenho dos leitores, o maior problema da maioria das pessoas é conseguirem-se livrar das coisas que têm um significado sentimental. Um exemplo disto são os trabalhos escolares das crianças que os pais têm grande dificuldade em deitar fora.

O que eu faço é fotografar as coisas e guardo os ficheiros no computador, para um dia se quiser recordar. Não é necessário ter toneladas de papel em casa. E mais. Recebo muitos e-mails de leitoras que estão a tentar “destralhar” e jogar coisas fora, mas depois os maridos… é complicado… porque bloqueiam…

Agora que estamos no Verão também dá destaque ao “staycation”. O que é isso?

Foi um fenómeno que nasceu nos EUA em resposta à crise. É uma forma de poupar dinheiro, de passar as férias em casa, mas aproveitando o tempo. Não é ficar parado sem fazer nada! A ideia é a pessoa descobrir, ou redescobrir o que a sua zona tem para oferecer. Temos muitas vezes o hábito de ir para fora de férias, só porque fica bem e para mostrar aos outros que somos melhores que o vizinho do lado. Dou o meu exemplo: conclui que conheço melhor Paris, onde já visitei tudo o que há para visitar, do que Lisboa que é a minha cidade! O “staycasion” também lançou um desafio a vários blogueiros para fazerem um roteiro da sua cidade, e é um exemplo que incentivo. A ideia aqui parece-me interessante, porque muita gente parece só conhecer o caminho para a praia.

Como vê a crise?

As pessoas estão a mudar muito por causa dela. Têm estado a adoptar comportamentos mais frugais e mais verdes. Mas a questão é, no dia que as coisas melhorem, vamos voltar a comprar carros e a gastar dinheiro em coisas que não interessam?

Quantas horas diárias trabalha no blogue?

Tento levantar-me cedo, e gosto de trabalhar no blog entre as 6h00 e as 7h30. É quando estou mais inspirada e tenho a cabeça fresca. Além disso, tento responder a todos os e-mails e comentários. Diria no máximo 2 horas por dia.

Que mais podemos esperar de si?

Sinto que encontrei o meu lugar na blogosfera. Este blogue traz-me imensa satisfação porque vejo que consigo ajudar as pessoas. É algo que sempre quis fazer. Sei que o meu trabalho enquanto cientista terá impactos para a sociedade a longo prazo, mas enquanto isso não acontece, vou continuar a abordar estes temas...

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