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Zev Schwarcz
O rabino do Algarve

A história começa talvez há 20 anos atrás, quando um sul-africano chamado Ralf Pinto decidiu com o apoio da família, e mais tarde até da comunidade judaica internacional, restaurar o antigo cemitério judaico que existe na cidade de Faro. Pinto também começou a organizar a comunidade que então apenas somava algumas famílias espalhadas pelo Algarve.
Em Agosto do ano passado, o guardião deste património faleceu, mas não sem antes ter realizado uma ambição antiga. “Ele era uma pessoa laica, mas que ao mesmo tempo sentia que havia a necessidade de levar as coisas a outro nível. Ele estava à procura de um líder espiritual” para as cerca de 60 famílias judaicas que actualmente residem no Algarve, e foi assim que surgiu em cena o rabino norte-americano Zev Schwarcz.
Schwarcz tem um objectivo principal: montar uma sinagoga em Albufeira, com capacidade para albergar, pelo menos, 30 a 40 pessoas numa cerimónia regular de sexta-feira à noite.
“Para além do edifício, também precisamos de alguns livros e itens religiosos”, diz. Parece simples, mas por exemplo, o rolo da tora (os cinco capítulos escritos por Moisés que abrem a bíblia hebraica) custa cerca de 12 mil dólares. “O preço explica-se porque é tudo feito à mão por um indivíduo altamente especializado. A tinta, o papel, os caracteres, tudo obedece a requisitos especiais”, diz.
Ainda assim, Schwarcz espera ter tudo pronto até à segunda quinzena de Abril, por altura da próxima época importante para os judeus. As cerimónias são em hebreu, e possivelmente haverá tradução para inglês e português.
“Qualquer pessoa é bem-vinda. Penso que será interessante para os portugueses que acreditam ter raízes judaicas e que se sintam curiosos em descobrir o que é o judaísmo”, diz.
“Ser judeu é uma forma de estar na vida. A tora é um guia para o aperfeiçoamento pessoal. É sobretudo um guia para nos tornarmos pessoas melhores. As regras da tora podem ser divididas em dois grupos. A primeira diz respeito a como agimos com os outros, e a segunda como agimos com Deus. Mas todas têm por objectivo o desenvolvimento pessoal, enquanto seres humanos”, resume.
A sua segunda missão será fundar um centro comunitário para “eventos que as pessoas queiram fazer juntas”. Em geral, as sinagogas sempre foram lugares de reunião para se socializar”.
Questionado acerca de Portugal, o rabino já formou uma opinião. “Para mim, ter uma oportunidade nova na vida é fantástico. Claro que posso sempre voltar aos Estados Unidos, mas a situação económica não está melhor do que aqui. Nalguns aspectos, no que toca a leis e regulamentos, aqui as pessoas têm mais liberdade”, diz apontando o dedo à influência dos progressistas no outro lado do Atlântico.
“Apesar de ser católico, este não é um país de fanatismo religioso. O povo português tem as suas convicções, mas guardam-nas para si próprios. São muito tolerantes. Penso que é por isso que há cada vez mais judeus que se mudam para cá. Sentem-se confortáveis e bem-vindos aqui”, diz.
“Penso que Portugal tem características únicas. Tenho conhecido muitas pessoas que estão realmente a tentar fazer alguma coisa pela vida, através de pequenos negócios – desde viagens turísticas, à produção de vinho, à gestão de pequenos restaurantes. Isto costumava ser o espírito que tínhamos na América. E vejo isso mais aqui, do que em qualquer outro país. Obviamente, que há muitos problemas, mas penso que é esta atitude que torna o país atraente”, afirma.
Schwarcz acha os portugueses empreendedores. Encontrou um exemplo, recentemente em Alenquer. Foi certificar a quinta onde desde 2010 é produzido vinho “kosher” destinado quer à comunidade israelita portuguesa, quer à exportação, para sítios como Nova Iorque e Amesterdão. A única coisa diferente neste vinho, na verdade é que as uvas devem ser vindimadas por uma máquina, e todos os aspectos da produção têm de passar pela supervisão de um rabino. Isto permite cumprir um dos principais rituais da Lei “kosher”, que proíbe qualquer pessoa exterior à comunidade de tocar nas uvas.
No Algarve, a comunidade judaica engloba sobretudo estrangeiros - na maioria reformados, vindos da África do Sul, Canadá, Inglaterra, Holanda, Alemanha. “Temos um pouco de tudo”. Outra das razões para se estabelecer no centro do Algarve é porque este destino é cada vez mais procurado pelos judeus da Europa e da América. Alguns, até a longo termo.
“Muitos americanos procuram um bom sítio para gozarem a reforma. Penso que o nível de vida aqui é muito bom, não é de todo, um país terceiro-mundista”, diz. Mas não acha que está descaracterizado e excessivamente urbanizado? “Não. Se calhar se tivesse cá vindo há 20 anos atrás, concordaria consigo. Reparei que há um problema, sim. Tenho andado à procura de fado e não encontro.
Se formos a Sevilha, há flamenco por todo o lado. Mas as pessoas aqui podem facilmente recuperar a sua cultura, se forem suficientemente espertos para o fazer”, diz.
Falemos da história. Zev não tem dúvidas que Portugal, tal como a Espanha, ainda hoje paga o preço de alguns erros históricos. “Penso que estes dois países, nunca recuperaram o estatuto de potência mundial que tiveram, a partir do momento em que decidiram livrar-se dos judeus”, por questões religiosas, no início do século XVI.
“É curioso, porque em Portugal, os judeus eram estimados. O governo não queria que fossem embora. Apenas queria que se convertessem ao catolicismo e isso foi mais por motivos políticos do que por uma questão de ódio. O Marquês de Pombal fez muitos esforços para remover os problemas que havia contra os judeus”, sobretudo para travar a máquina da inquisição. “Ele foi um grande humanista”.
O rabino também evoca o abrigo que Lisboa e o Porto foram durante a Segunda Guerra Mundial. Pergunto-lhe então sobre o anti-semitismo?
“Essa é uma questão que tem sido discutida por muitos filósofos e líderes judeus ao longo dos tempos. Penso que outras religiões que tiveram origem no judaísmo tentaram sempre impor-se, e isso poderá fazer parte da explicação. Outro motivo é que as pessoas judaicas são suposto terem um sentido muito forte de moralidade que talvez cause ressentimento nos outros”, diz.
Zev acabou o ensino secundário e quis estudar a tora, “um curso muito intenso, que levado a sério, precisa de 8 a 10 horas de estudo diário”, diz. Passou sete anos no seminário, uma escolha inteiramente pessoal. “Sim, é um desafio para a mente e além disso, sempre soube que queria ensinar os outros”.
Portanto, diz acreditar que a religião é muito positiva na vida, seja qual for, porque dá uma perspectiva e uma atitude moral. “Infelizmente, muitos desses princípios têm sido ofuscados pelo fanatismo”, conclui.
O rabino está contactável através do telemóvel 0351 937 031 467 e do e-mail Email
Há também uma página oficial em: http://www.facebook.com/jewishsp







