| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | por favor deixe-me saber como chegar a esse lugar cemiterio estacionamento, seja o que seja hoje; grato ![]() paulonazareth, santa luzia / MG _ brasil, 15 Janeiro 2013 02:07www.cadernosdeafrica.blogspot.com ![]() paulonazareth, santa luzia / MG _ brasil, 15 Janeiro 2013 02:06preciso chegar ahi por CADERNOS DE AFRICA. por favor responda-me eh de extrema importancia p.nazarethedicoesltda@gmail.com ![]() paulonazareth, santa luzia / MG _ brasil, 15 Janeiro 2013 02:05 _ CEMITERIO ESTACIONAMENTO_POR FAVOR PESSO-LHE A GENTILEZA DE ENVIAR-ME TAL INFORMACIO ? GRATO PELA ATENCION PAULO ![]() paulonazareth, santa luzia / MG _ brasil, 15 Janeiro 2013 02:04CARO bRUNO SOU PAULO NAZARETH ARTISTA BRASILEIRO REALIZANDO CADERNOS DE AFRICA___ POR FAVOR PRECISO SABER O QUANTO ANTES O ENDEREZCO DESSE LUGAR ![]() paulonazareth, santa luzia / MG _ brasil, 15 Janeiro 2013 02:02 |
Lagos, ex-cidade de escravos
A face oculta dos Descobrimentos

A nossa primeira pergunta tem a ver a com a vossa intervenção arqueológica. Quando começou e quando terminou? Quantas pessoas envolveu?
Maria João Neves: A «Dryas» deu início à escavação do Parque de Estacionamento do Anel Verde, no Vale da Gafaria em Lagos, em Janeiro de 2009. A escavação, realizada em contexto de obra e no âmbito de uma acção de minimização de impactes sobre o património arqueológico, foi desde o princípio orientada para a salvaguarda dos bens patrimoniais que pudessem existir naquele local.
Como este tipo de acção se encontra tipificada legalmente como uma “acção preventiva”, destinada a promover a minimização de impactes devidos a empreendimentos públicos ou privados, nós optámos sempre por manter este título de “escavação arqueológica preventiva”.
No fundo, sem a obra e sem a implementação destas medidas preventivas de salvaguarda do património, o sítio não seria ainda conhecido com este detalhe.
Em campo estiveram durante os cinco meses de duração dos trabalhos de campo cerca de 30 profissionais, incluindo-se arqueólogos, antropólogos e geomorfólogos. Hoje em dia a equipa é constituída por cerca de 20 investigadores que incluem antropólogos, arqueólogos, engenheiros geográficos e historiadores.
Como foi encontrado e como é que se chegou à conclusão que se trata de um “cemitério” de escravos?
Quando a «Dryas» chegou ao terreno o nosso objectivo era o de reunir o máximo de dados possíveis acerca de eventuais vestígios arqueológicos que pudessem existir neste local. Começámos assim por realizar uma série de sondagens arqueológicas, para aferir esse potencial. Nestas sondagens identificámos não só os depósitos de uma vasta lixeira, ali acumulada entre os sécs. XV e XVII, como também esqueletos humanos.
O contexto em que foram identificados estes esqueletos – no seio de uma vasta lixeira urbana, acumulada no interior e em torno de um extenso “boqueirão” (uma grande depressão natural com cerca de seis metros de profundidade) - as características morfológicas e métricas dos crânios dos indivíduos, e, o material arqueológico associado (algum claramente africano), permitiram-nos identificar aqueles indivíduos como escravos africanos.
Importa referir que o costume de depositar os escravos em poços - como o que existia naturalmente no lugar da lixeira de Lagos – encontra-se também documentado nas fontes históricas.
Com efeito, D. Manuel I, e de forma a evitar que os corpos dos escravos fossem abandonados nas ruas, onde eram arrastados e devorados por cães, mandou através de um decreto régio de 1515 “fazer um poço o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais conveniente e de menos inconvenientes, no qual se lançassem os ditos escravos”.
Deste modo, e tendo em conta tanto os dados da escavação como os das fontes históricas, a explicação para o achado reside na existência de uma prática de descarte dos cadáveres dos indivíduos que reduzidos à escravatura. Aqueles que não resistiam às condições extremamente difíceis do cativeiro eram assim inumados.
Ora, sendo Lagos uma das cidades pioneira e que maior destaque teve no tráfico de escravos, não é de estranhar este achado.
Porém, e apesar de não ser “estranho” – existindo inclusivamente a notícia histórica de se terem constituído naquela época cemitérios semelhantes - não era conhecido qualquer registo arqueológico semelhante.
É sabido que Lisboa e Sevilha foram as duas principais cidades escravocratas da Europa antes da chegada dos portugueses (1443) na Africa Sahariana. Como é que se explica este comércio em Lagos? Porquê nesta cidade?
Lagos tem um papel preponderante no tráfico porque é um dos principais portos envolvidos nos Descobrimentos. Ora, os Descobrimentos foram como se sabe em muito a obra do Infante D. Henrique que à época residia naquela cidade. Refira-se que de resto o Infante detinha os direitos sobre comércio de escravos.
A escavação de Lagos traz algo de novo ao que sabemos sobre as condições socioculturais em viviam os escravos? Que nos pode dizer?
A escavação desta lixeira acumulada às portas da cidade de Lagos propiciou-nos uma oportunidade única para a documentação objectiva do tratamento após a morte, e antes desta, a um conjunto importante de escravos africanos entre o séc. XV e o XVII.
Através do esqueleto humano, o vestígio mais directo dos nossos antepassados, conseguimos saber aspectos relativos a estes indivíduos – como a idade, o sexo, a estatura ou a sua ancestralidade – bem como as doenças de que padeceram ou eventuais episódios violentos a que tenham sido sujeitos e que deixaram marcas nos ossos.
Note-se que de facto muitos dos indivíduos recuperados evidenciam lesões ósseas compatíveis com uma pobre saúde nutricional. Encontram-se também sinais de violência tanto directa como indirecta – nomeadamente evidências de amarramento das mãos e dos pés.
Ora, a obtenção deste tipo de dados, confrontados com a leitura das fontes históricas, permite entrever um quadro social e mental complexo que terá determinado o enterramento destes indivíduos no seio da lixeira urbana da cidade.
Estes elementos são também muito importantes para a compreensão da forma como eram tratados em vida e na morte no Portugal Moderno.
A comunidade académica tem-se interessado por esta descoberta? Que outros passos serão dados a seguir?
A comunidade académica tem-se interessado muito por este achado. Com efeito, desde 2009, que a equipa da «iDryas» em colaboração com a Universidade de Coimbra e com investigadores do Comité Português da "Rota do Escravo" da UNESCO têm desenvolvido esforços no sentido de desenvolverem e implementarem projectos de investigação centrados nos resultados obtidos neste sítio.
É assim neste âmbito que presentemente decorre um projecto de investigação financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian “O Poço dos negros de Lagos: Contributo para a compreensão do tratamento funerário dos escravos africanos nos sécs. XV e XVI”.
Este projecto constitui porém um primeiro passo dum programa de investigação mais amplo, que para ser desenvolvido, necessitará de novos financiamentos, estando já assegurado o interesse e a participação de um conjunto muito vasto de investigadores de outros países, onde o tráfico de escravos foi determinante para a constituição das actuais identidades e nacionalidade.
Importa também referir que actualmente está também disponível ao público uma pequena exposição patente no Mercado de Escravos em Lagos, onde, partindo do conceito de mercadoria, são apresentados alguns dos achados realizados na Lixeira de Lagos. Esta exposição foi organizada pela Câmara Municipal de Lagos, com a colaboração da «Dryas» e de alguns artistas plásticos do Laboratório de Actividades Criativas de Lagos.
Este foi o lado negro da tão propagandeada epopeia dos descobrimentos?
Sim, podemos dizer que este foi um lado muito negativo do contacto com outros povos e outras geografias. Não nos devemos esquecer que morreram de forma directa e indirecta muitas pessoas vítimas do tráfico de escravos transatlântico.
Tem sido divulgado que se trata de um achado único no mundo. Porquê?
A utilização da lixeira de Lagos como local de descarte e de enterramento de escravos é um achado sem paralelo a nível mundial. Importa notar que existem, sobretudo no continente e ilhas americanas, outros cemitérios escavados de escravos. Porém, o contexto específico deste (uma lixeira) e o facto de ser um dos primeiros cemitérios – os restantes datam de períodos mais tardios, dos sécs. XVII a XIX – torna este achado único a nível mundial.
No Brasil são conhecidos alguns locais, como o cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro. Já agora, existem mais identificados em Portugal?
Em Portugal as fontes históricas referem a existência de outros cemitérios (boqueirões) noutras cidades, como Lisboa ou Elvas, mas até à data nenhum foi escavado.
Para além dos esqueletos, encontraram algo mais no local?
Nesta vasta lixeira, a par dos esqueletos dos escravos (155) foram também encontrados muitos vestígios arqueológicos (cerâmicos, metálicos, faunísticos) que correspondem a itens que os habitantes de Lagos aqui descartavam. Estes objectos são particularmente informativos acerca do modo de vida, dos hábitos, dos costumes, das relações económicas e sociais estabelecidas na cidade em época moderna. Note-se por exemplo que foram recolhidos milhares de fragmentos cerâmicos muitos dos quais de oficinas estrangeiras (espanholas e italianas fundamentalmente), o que demonstra a vitalidade comercial e económica desta cidade portuária onde afluíam todas estas mercadorias.
E em relação ao local dos achados?
Hoje em dia o local é um parque de estacionamento. Os vestígios foram escavados e documentados de forma integral, constituindo um acervo material extremamente importante que testemunha os primeiros momentos do tráfico esclavagista atlântico.
O Comité Português da UNESCO da “Rota do Escravo”, dirigido pela Prof. Doutora Isabel Castro Henriques, prevê realizar um memorial no local do achado, salientando, de acordo com programa global da UNESCO, a memória do tráfico transatlântico de escravos. Prevê-se ainda colocar em funcionamento em Lagos um centro de investigação dedicado ao tema, de vocação claramente multidisciplinar.
O público vai poder ver estes vestígios arqueológicos?
Pode já ver parte na exposição que ainda se encontra patente no Mercado de Escravos. Seguramente no futuro serão organizadas novas iniciativas onde se possam ver outros achados. Note-se que o acervo arqueológico deste sítio é enorme.
É verdade também que foi encontrada uma gafaria de leprosos? Pode falar-nos um pouco sobre isso?
A recuperação de uma planta Moderna da cidade, a análise das fontes documentais, e os dados da própria escavação arqueológica, leva-nos a concluir que terá coexistido na área intervencionada, com a lixeira moderna, a Gafaria de Lagos. Este hospital dedicado aos gafos (doentes de Lepra) terá sido mandada construir nas Cortes de Évora em 1490. Mais tarde, dada a necessidade de se renovarem as muralhas de Lagos (a Cerca Nova) esses edifícios teriam sido demolidos e desmontados. Assim, a Gafaria de Lagos terá funcionado aqui entre finais do séc. XV e meados do séc. XVII.
Uma última pergunta, mais pessoal e subjectiva. Em termos humanos, esta descoberta mudou alguma coisa na sua vida?
Sem dúvida. Penso mesmo que teve um impacto profundo em todos aqueles que participaram neste processo, quer na equipa de investigadores que estudam o sítio, quer na equipa de engenharia da obra. A possibilidade de observar directamente os esqueletos, de adultos e crianças, nas posições em que se encontravam, é sem dúvida algo que nos perturba muito e que nos ajuda a estudar um flagelo – a escravatura – que infelizmente hoje em dia ainda vitima milhões de pessoas em todo o mundo.
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O Cemitério dos Pretos Novos - a barbárie esclavagista no Brasil
A propósito da descoberta na cidade de Lagos, falámos com um investigador brasileiro. Júlio César Pereira é o director do Núcleo de pesquisa do IPN - Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – nome do cemitério idêntico na cidade do Rio de Janeiro – que tem estudado nos últimos 10 anos.
“O Cemitério dos Pretos Novos é único no Brasil e talvez na América, porque foi o o único cemitério exclusivo a escravos recém-chegados e, também porque os corpos não eram sepultados. Eram deixados ao relento trazendo muitos problemas, para além de ser um completo desrespeito a cultura africana”, disse-nos em entrevista.
Para se ter uma ideia, o cemitério foi criado em 1722 e viveu a sua fase final no período de 1824 à 1830, tendo recebido nesse intervalo de tempo cerca de 4.000 corpos em um espaço físico de menor que 100 m².
“Acredito que, no Brasil, ainda é muito grande o desconhecimento acerca do nosso passado escravista. A história oficial ainda esta permeada por factos não verídicos e o conhecimento produzido por nós na Academia dificilmente chega à população média”, considerou.
Na sua tese de mestrado, que mais tarde deu origem a um livro, este investigador chegou a algumas conclusões sobre o que se passava na altura em que os seres humanos eram reduzidos à condição de mera mercadoria.
A primeira é que “o cemitério não sepultava os recém-chegados por causa do tráfico, pois o aumento da demanda verificada na primeira metade dos século XIX, fez com que as condições de transporte e de acomodação piorassem grandemente, aumentando a mortalidade.”
“85% dos escravos sepultados ali foram homens, 10% a 5% crianças (90% destes vieram da África Central Atlântica, ou seja: banto). Apesar de conhecer a cultura africana que toca ao "bem-morrer", a Igreja negligenciou as práticas de sepultamento realizadas ali, demonstrando um completo desrespeito aos seres humanos ali sepultados (o racismo pode ser lido aí). O cemitério fechou em 1830 não por pressão da comunidade, mas por causa da eminência do fim do tráfico atlântico de escravos”, informou.
Para mais informações sobre o Cemitério dos Pretos novos, leia o artigo «A flor da terra Morte e sepultamento» da autoria do professor Júlio César Pereira.
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Comité do Projecto "Rota do Escravo"
O projecto "Rota do Escravo" é um projecto intercultural da UNESCO. O tráfico negreiro transatlântico, factor determinante da economia mundial no século XVIII foi o maior movimento organizado de deportação da História. O projecto "Rota do Escravo", lançado pela UNESCO em 1994, tem por objectivos, por um lado, o estudo e o conhecimento das causas profundas da e das modalidades do tráfico negreiro e, por outro lado, a identificação e estudo das interacções que o tráfico gerou nas Américas, nas Antilhas e no Índico. Visa a verdade histórica, a paz, o desenvolvimento, os direitos humanos, a memória e o diálogo intercultural.







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