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Edição 730
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A quadra multi-cultural no Algarve

Natal, mas com outro nome...

Na Bielorrússia, chama-se «Ded Moroz». Na China, é «Dun Che Lao Ren». Na Índia é «Christmas Baba». Traduzido para português, é «Pai Natal». Quando planeámos esta edição natalícia, tive a (brilhante?) ideia de entrevistar algumas das minorias que residem no Algarve – outras nacionalidades para além da britânica ou outras europeias – para tentar descobrir o que fazem no talvez único dia do ano que o mundo se torna meloso e sentimental. E também para saber como se sentem enquanto estrangeiros a viver e trabalhar em Portugal. “Penso que será muito difícil encontrar um chinês disposto a falar connosco”, avisou o meu editor, que infelizmente, tinha razão. Todos os que abordei reagiram como se lhes pedisse para me deixarem arrancar-lhes um dente sem anestesia. Bem, já que a ideia foi minha, deve haver alguém que concorde em falar comigo – mas com a pressão dos prazos, tinha de encontrar uma solução e rápido. 
Foi assim que me lembrei da Índia!
Natasha Donn, Edição 709 (22 Dez 2011), Sem Comentários »

Praia da Luz, alguns dias antes do Natal. Normalmente, há sempre actividade, mas a verdade é que se conseguiria ouvir um alfinete a cair no meio do largo. Onde é que está toda a gente?

Na ervanária, Meri Hanlin diz-me que teve que “imitar o Bruce Springsteen no meio da rua”, pelo menos três vezes, na semana passada. O quê? “Sim, saí a berrar - está alguém vivo aqui? Gritei o mais alto que consegui com a minha voz”, explicou. “Agora, parece que as coisas estão um pouco melhor”.

Mas por muito inspirador que seja falar com a canadiana Meri Hanlin, ela não é o tipo de minoria que procurava para o meu artigo.

Em frente ao mar, encontro o par perfeito: Madhu Panicker e Raj Kumar, do restaurante «Saffron Indian Kitchen».

“Os hindus adoram o Natal”, disse-me, ambos praticantes do hinduísmo. “Gostamos de todos os feriados, não há problemas nenhuns!”, contam enquanto me estendem um delicioso e quentinho chá de especiarias.

“No Natal vamos à igreja e acendemos muitas luzes na casa”, acrescenta Madhu Panicker. “Fazemos estrelas de papel e comemos caril de frango!”

Mas e o que fazem aqui, no sul de Portugal? “Temos um dia livre para comer caril de frango com os amigos. Talvez vamos a Sagres. Temos um dia agradável!”

E como consideram a vida aqui? “Muito boa”, responde.

“Estou a tratar da nacionalidade portuguesa, e depois vou trazer toda a minha família para cá!”

Espantoso? Madhu explica que havia 50 a 60 famílias indianas a viver em Lagos, mas que socializar é difícil quando só se tem apenas uma manhã de folga por semana – para além do dia de Natal, claro.

Só isso? Não deveria ele ter direito a dois dias por semana, como toda a gente? “Aqui as pessoas trabalham sob as regras europeias, mas nós seguimos as indianas. Apenas uma manhã por cada semana. O resto do tempo é para trabalhar!”

Mas como tantos outros imigrantes de países (mais) pobres, estes dois cidadãos indianos estão simplesmente gratos por terem um emprego – tal como Nikolai Kuryan.

Este bielorusso é um dos nossos mais poéticos leitores (que conhecemos). Tem estado em contacto connosco por algumas vezes durante o último ano. Na verdade, escreveu-nos uma carta a contar o que se tem passado com a sua vida – tão emotiva e sincera que nunca soubemos muito bem o que fazer com ela. Escrita à mão, em papel de linhas simples, agradeceu-nos por o termos ajudado a “mudar de vida”.

Autodidacta em Inglês, disse que nos acha um jornal “honesto que diz as verdades”. Além disso, utiliza-o para aperfeiçoar o português, durante as suas viagens de visita a casa, em Minsk.

Claro que ficámos curiosos em conhecer mais este Natal estrangeiro pela sua voz. Como é a quadra na Bielorrússia?

“Comemoramos dois natais. O primeiro é o católico, nos dias 24/25 de Dezembro. O segundo é o da igreja ortodoxa russa, depois do ano novo, a 7 de Janeiro”, explica.

“Para mim foi interessante aprender que na Alemanha, o pai natal é chamado São Nicolau, pois no meu país, traduzido à letra, chamamos-lhe avô gelo (Ded Moroz)”, diz.

“No meu país, o avô gelo vem acompanhado da neta Snegurochka!” (em português, a menina do gelo). “É um tempo de

celebração para a família, à volta de uma mesa recheada. Há muita neve e as crianças atiram bolas de neve na rua. É uma época maravilhosa e feliz”.

Nestas palavras, pressinto alguma saudade…

“Para mim, ter vindo para o Algarve proporcionou-me uma vida melhor – uma que não é possível na Bielorrússia – e gosto de muitas coisas aqui!”

“Quando vim cá pela primeira vez, pensei que esta terra era mágica, bela – uma maravilha. Senti-me bem ao ver tantas barragens e rios – e as cidades e as ruas tão cheias de charme. Podemos passear aqui, ao final do dia, sem nunca nos sentirmos cansados, pois há tanto para ver! Não se gosta de ir para casa. E cada cidade é totalmente diferente, mas sempre agradável. Vivo aqui há quatro anos e posso dizer: Algarve, tu meu amor!”

Nikolai Kuryan, actualmente trabalha em Sines, numa fábrica, porque considera que os empregos no Algarve são “mais difíceis no Inverno”, mas tenta vir para Lagos todos os fins-de-semana para apreciar o “lugar especial” a que agora chama de casa.

É falando com pessoas como o Nikolai, Madhu e Raj, que se percebe que Portugal, apesar de todos os problemas actuais, não é mau de todo. Devemos lembrar-nos disso este Natal, e estarmos gratos pelo que temos, por pouco que seja. Muitas nações, não têm tanta sorte…

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