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«Meio Metro de Pedra»

Histórias de quando o Rock’n’roll era novo

Pela primeira vez em Portugal, está documentada a história do rock’n’roll nacional desde o seu surgimento no fim da década de 50 até aos nossos dias. Inspirados por bandas como os Shadows, Bill Haley ou os Beatles, cerca de 3.000 conjuntos de norte a sul abalaram um país conservador, fechado sobre si próprio e avesso a qualquer tipo de irreverência. É uma história curta e algo obscura, mas que ainda assim, merece ser recuperada. Foi isso que levou o jovem realizador Eduardo Morais, 25 anos, a fazer o documentário independente «Meio Metro de Pedra», que passou pelo Algarve no último fim-de-semana. Afinal, quem se lembra de quando o rock era novo?
Edição 708 (15 Dez 2011), Sem Comentários »

“Não é algo que eu tenha recebido de herança, que me tenha sido transmitido, nem que nenhum familiar meu me passou como testemunho. Foi algo que a partir do momento em que descobri, me levou a cavar cada vez mais fundo”, diz Eduardo Morais, a propósito do seu trabalho de estreia enquanto realizador.

“Quis ter uma visão iconoclasta e colmatar uma lacuna que existia. Já chateia ouvir-se falar sempre dos mesmos”, isto é, alguns artistas a quem se convencionou a dar a paternidade do rock’n’roll português, no início da década de 1980.

“Na verdade, há muito mais gente para trás disso. Se calhar numa vertente mais underground, independente - mas que foram muito importantes para essa contracultura, como eu gosto de lhe chamar”, diz.

O jovem cineasta diz que “o espoletar de tudo isto” surgiu com a colectânea «Portuguese Nuggets - A trip to 60’s Portuguese Beat Surf and Garage Rock», editada em 2007.

“A partir daqui, comecei a interessar-me. Como é que nos anos 1960 existiram bandas tão porreiras em Portugal e ninguém ouviu falar nisto?”

Um exemplo que gosta de citar são os «Jets».

Apesar de um dos membros originais, o escritor e jornalista João Alves da Costa, ser relativamente conhecido, a banda onde tocou bateria, nem por isso. Percursores do psicadelismo em Portugal, os «Jets» foram responsáveis por uma sonoridade então praticamente inexplorada. Segundo relatos da época, consta que em 1965, na altura já com cinco anos de existência, deixavam as audiências em delírio.

Para Eduardo Morais, esta foi também uma viagem a um outro mundo. “Tínhamos grandes problemas de gravação na década de 60. Um dos relatos do documentário é da cantora Madalena Iglésias” - que na altura foi várias vezes eleita como a “Rainha da Rádio” e neste documentário faz uma espécie de contraponto – “contar que quando se começou a gravar em oito pistas em Portugal, foi quase feriado nacional!”

“Em termos de condições, comparando com Espanha, ou França, tínhamos grandes dificuldades. Em termos de qualidade musical, penso que tínhamos bandas com carisma e uma portugalidade muito marcada”, diz.

O início da guerra colonial, em 1961, marcou uma geração e não só. “Não há dúvida que o Ultramar fez com que praticamente muitas das bandas e conjuntos que existiam desaparecessem à medida que os músicos iam sendo convocados para a tropa.”

A maioria nunca mais regressaria às lides musicais. “Dos intervenientes com quem falei para o meu filme, desse tempo, o único que ainda hoje está no activo é o Filipe Mendes”, músico que usa o nome artístico Phil Mendrix. E apesar de ser um verdadeiro mago da guitarra eléctrica (blues), permanece quase anónimo, sendo um desconhecido para muitos portugueses.

Mas há mais heróis esquecidos. “O Victor Gomes diz que se sente muito injustiçado. É um senhor que foi considerado o rei do twist em 1957, em Moçambique. Quando veio para Portugal, dava espectáculos maravilhosos” com a banda «Gatos Negros», entre 1963 a 1967.

Consta que foi ele quem trouxe a rebeldia e os blusões de cabedal pretos, à maneira rebelde americana. Ainda hoje, é o artista com mais concertos no famoso cabaret Maxime, em Lisboa. Mais recentemente, chegou a ter uma oficina de artesanato em pedra no Algarve…

Para fazer o filme, o jovem realizador teve um apoio de €2500 da autarquia das Caldas da Rainha, de onde é oriundo, pago “com muito atraso”. Fez praticamente todo o trabalho sozinho. “O orçamento total, não consigo dizer, mas da última vez que fiz as contas, só em deslocações já ultrapassava os 3000 euros”, soma.

Durante a pré-produção, “passei muitas horas na hemeroteca municipal de Lisboa, a fazer pesquisa. Existem exemplares de uma revista de música, espectáculos e cinema, chamada «Plateia» que neste momento caiu em domínio público. Para mim, esse material de arquivo foi importantíssimo”, diz.

É curioso, pois se por um lado a «Plateia» apoiava novos projectos emergentes, também dava voz a preconceitos sobretudo no rock’n’roll. “Sim, sim. Tenho vários cartoons que dizem que o fã de yé-yé é aquele que não gosta de trabalhar, é aquele que não gosta de tomar banho, que não gosta de lavar os dentes”.

Também o regime de Salazar olhava estes sons com antipatia. Numa década de inovações e experimentalismos, muitas bandas tentavam copiar o que era difundido pela rádio e ouvido em ocasionais, discos trazidos do estrangeiro.

“Havia uma banda que eram os Steamers que quando tocavam, colocavam um pano em cima do teclado com a palavra liberdade. Certa noite, apareceram uns agentes da PIDE que mandaram retirá-lo, senão iam todos presos. Isto foi em 1969.”

“Não tenho vídeos de arquivo, porque tudo o que é pré-25 de Abril de 1974, quem detém os direitos é a RTP, que cobra muito dinheiro. Cheguei a ter algumas reuniões na Valentim de Carvalho e deram-me um exemplo que me meteu medo, logo à partida. Uma música do Quarteto 1111 para ser usado num documentário deste tipo custa cerca de 1000 euros por minuto!”

“Obviamente, que houve muitas coisas que ficaram de fora e foi sempre um tentar contornar a burocracia destas questões. O material que tenho foi todo cedido pelos artistas, por algumas entidades e por particulares”, informa.

“Lucro? Ando de terra em terra, com um DVD debaixo do braço e quando há possibilidade para isso, faço um DJ set para ajudar a pagar as despesas”, diz. “Além disso, tenho sempre comigo uma banca de discos de várias editoras portuguesas”.

Em Faro (a primeira de três no Algarve), foi a 22º exibição do filme por todo o país em apenas 2 meses e meio. “Isto prova que há interesse. Há sempre uma sessão de perguntas e respostas no final e vejo que os anos 60 suscitam grande curiosidade”, considera.

A cada exibição de «Meio Metro de Pedra», tenta-se sempre convocar antigos músicos locais para estarem presentes. “Sim, por exemplo, em Viseu, convidei os Tubarões que eram uma banda dos anos 60. Em Vila Real, convidei os Rangers, também dessa altura. No Algarve, quando estava em filmagens, coloquei a hipótese de vir cá falar com o Miguel Silveira, baterista dos Quarteto 1111, que era uma das pessoas que queria entrevistar. Penso que mora perto de Olhão, mas não vim porque não tinha dinheiro”, lamenta.

Com este projecto, Eduardo Morais aprendeu “que não damos muito valor à história, e isso é estranho. E certamente não damos valor a tudo o que é politicamente incorrecto.”

Futuramente, “se arranjar dinheiro” não descarta a hipótese de uma edição em DVD. “Gostava que a RTP pegasse nisto, mas neste momento está a exibir os documentários «Estranha Forma de Vida» e penso que não haja grande interesse para já…”

Próximo projecto? “Ainda está tudo um pouco embrionário, mas quero fazer um documentário sobre coleccionadores de discos de vinil. É algo que está em extinção, mas que ainda movimenta muita gente”.

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