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Geocaching

Caça ao tesouro do século XXI

É uma actividade cada vez mais popular. Basta ter um receptor GPS (no telemóvel também serve), gosto pelo contacto com a natureza e muita curiosidade. Pode ser solitário, em grupo ou em família. O objectivo é encontrar algo que alguém escondeu (uma cache) e publicou na internet as coordenadas. Normalmente é apenas uma caixinha de plástico, que guarda um bloco de notas e outros objectos. Cada cache tem uma aventura associada – tanto pode estar escondida no tronco de uma árvore centenária, como numa rua movimentada de uma cidade, ou numa gruta subaquática. Só em Portugal, já existem mais 9300 caches para descobrir (527 no Algarve). Falámos com alguns dos adeptos desta caça ao tesouro do século XXI.
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Usam alcunhas virtuais e quando estão à caça costumam ser discretos, pois não querem os seus tesouros expostos aos olhares curiosos dos transeuntes – a que chamam muggles - pessoas estranhas ao geocaching. Há quem faça o seu próprio carimbo ou porta-chaves personalizado para trocar com outros praticantes.

“Sim, há uma componente interessante do jogo, que alguns praticantes privilegiam mais do que outros, que é a troca de presentes dentro do contentor das caches. Já encontrei bússolas, canivetes suíços, relógios, moedas de colecção ou outros itens de maior valor.

Normalmente os presentes têm apenas um valor simbólico, mas por vezes, os owners (isto é, os criadores) deixam objectos de maior valor, para estimular a visita às suas caches, sobretudo quanto ficam em locais recônditos e de difícil acesso”, diz Gustavo Vidal, de Lisboa, mais conhecido por Prodrive.

É um dos mais activos praticantes nacionais de geocaching, que soma 6,876 caches encontradas no currículo, desde Setembro de 2006. É também um dos administradores do «Geopt» - um portal dedicado ao geocaching e desporto de aventura fundado em Abril de 2010.

Mas o mais importante é vencer um desafio. Geralmente, quem cria uma cache escolhe um determinado local por um motivo bem definido. Por exemplo, por ter uma paisagem natural fantástica (as chamadas Green Shades), ou por ser um motivo de interesse histórico ou cultural. Muitas têm títulos imaginativos, ou então, relacionam-se com velhas lendas e o folclore local.

“Para criar um enredo fantástico, alguns owners ficcionam um pouco e criam histórias próprias para as suas caches”, diz Gustavo Vidal. Tudo isto está livremente disponível no site oficial do geocaching (www.geocaching.com) para qualquer pessoa interessada. É também aí que o praticante deve fazer o seu registo (é gratuito) para participar neste jogo.

Miguel Ângelo Henriques e Carla Amaro, têm 33 e 29 anos e são ambos professores em Portimão - de Matemática e de Português e Espanhol, respectivamente. Descobriram o geocaching na segunda metade de 2009, por influência de um amigo. Desde então, “foi um não parar, de norte ao sul do país”, conta o casal, conhecido no meio do geocaching pelo alcunha CarlaCroftIndyMiguel.

“O entusiasmo é hoje ainda maior do que no princípio. O geocaching proporciona a descoberta de locais fantásticos, que de outra forma dificilmente descobriríamos, por exemplo as Vistas de Pássaro, uma praia paradisíaca em Albufeira, uma gruta nos arredores de Portimão, ou os bonecos do Barão de São João.

Por vezes, apanhamos alguns sustos ou porque caminhamos à beira de falésias, ou porque arriscámos e levámos o carro por caminhos tudo menos indicados para aventuras”, mas no final, tudo acaba com “muita risada” e fotografias memoráveis para partilhar on-line com outros geocachers.

Cada cache tem duas classificações, que variam de 1 a 5.

A primeira diz respeito à dificuldade do terreno. O valor máximo (5) indica a necessidade de material especial.

Por exemplo, equipamento de escalada, de mergulho, um veículo 4x4. Ou então, indica um percurso muito demorado e penoso. A outra tem a ver com o tamanho da cache. Pode estar quase à vista (1) ou ser muito difícil de encontrar (5).

“Basicamente, o GPS indica a localização da cache com um erro aproximado de 3 metros, que é a precisão actual do sistema de posicionamento global. A partir daí a tecnologia cumpriu a sua missão, e é o factor humano e a sua perspicácia que fazem a cache aparecer”, conta Gustavo Vidal.

Num portal português, um praticante confronta as condições para se praticar esta actividade em Portugal e em Inglaterra (http://geocaching-pt.net/364), onde a seu ver “toda a gente aproveita o campo, cada dia de sol é uma desculpa para o povo ir passear para a natureza. Em Portugal, o povo vai passear para o centro comercial”, compara.

Gustavo Vidal concorda. “Em parte sim. O povo português tende a não valorizar muito o seu património natural e paisagístico. Contudo, o crescimento exponencial que o geocaching tem tido no nosso país vem provar que, afinal, os portugueses gostam muito do contacto com a natureza. Talvez lhes faltasse apenas o pretexto para o fazer mais vezes”.

E sublinha que “o Algarve é uma das regiões de Portugal onde tenho mais caches encontradas, e é lá que estão algumas das minhas favoritas, não só na Costa Vicentina como também nas grutas do barlavento algarvio”.

Outro nome de peso no mundo do geocaching é Espargosas - um sénior britânico, residente há muitos anos no Algarve, antigo caminhante que já criou cerca de 20 caches na região (e descobriu mais de 400), que sublinha as vantagens para o turismo.

“Tenho a impressão que muitos estrangeiros vêm a Portugal para combinarem umas boas férias com a possibilidade de fazer geocaching interessante. Aqui, temos uma costa magnífica, bom tempo e património. Algumas das caches incluem pesquisa e raciocínio para resolver pequenos enigmas. Algumas requerem coragem, por exemplo, para descidas íngremes ou subidas arriscadas. Outras precisam de determinação para seguir múltiplas pistas a pé ou de bicicleta. Não há limites”.

Segundo nos conta, as suas caches já foram visitadas por um milhar de portugueses e centenas de estrangeiros, sobretudo turistas.

Para o casal de professores de Portimão, “o Senhor Espargosas não é qualquer um, é simplesmente um dos nossos ídolos, porque faz caches que valem muito a pena. Aqui pelo Algarve já fizemos questão de encontrá-las quase todas e salientamos, a Pandora’s Box (GC192D7) e a Farta Vacas (GC14W5W)”.

Também na Via Algarviana há desde meados de 2010, 6 caches oficiais, em 3 dos 14 sectores que dividem o percurso pedestre e ciclável que atravessa a região. Anabela Santos e Clara Carvalho, da associação Almargem, não estavam à espera de receber tantos comentários de pessoas que visitam as pequenas embalagens de plástico para sopa. “Praticamente todas as semanas recebemos mensagens de e-mail. A mais procurada é a do Ribeiro do Meirinho (GC24BK1)”, próximo da gruta onde se escondia em tempos passados o guerrilheiro Remexido, reconhecida pela população por “Cova do Remexido”.

Uma das características que diferencia o geocaching de outras actividades da natureza é o esforço feito no sentido de preservar a natureza e criar uma consciência ambientalista. Os praticantes são encorajados a recolherem o lixo que encontram.

“Se aconselhamos esta actividade a alguém? Claro que sim, a todos! No entanto, pedimos que se rejam pelo princípio mais fundamental do geocaching: contactar, descobrir, mas não estragar nem vandalizar!”, concluem Miguel Henriques e Carla Amaro.

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