PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaIdeias novas para um país diferente!

Marco Dias, 32 anos, economista e escritor

Ideias novas para um país diferente!

“Porque o povo português, mesmo com todos os seus defeitos e manias, não merece estar à mercê de uma classe política que só se importa consigo própria. Eu dou voz à minha indignação e proponho alterações radicais”. Apesar de não estar, nem ser do Algarve, o autor destas palavras captou a nossa atenção. Chama-se Marco Dias, tem 32 anos, é economista e auditor financeiro. Escreveu e publicou um livro com o título «Eles são todos iguais! …E eu? Sou diferente?» no qual defende novas ideias para um país melhor. Esta é primeira entrevista que concede a um jornal.
Edição 700 (20 Out 2011), Sem Comentários »

Qual é a ideia base por detrás do seu livro e porque tomou a iniciativa de o escrever?

Marco Dias:Posso ser sincero? Porque estava farto e já não aguentava mais. É a consequência natural de tanta hipocrisia a pairar no ar. Na política já não é novidade mas tudo o resto parece estar a ser contagiado pela doença. E desabafar com os meus familiares, amigos e colegas já não era suficiente para acalmar a minha consciência. Decidi arriscar um pouco e partilhar alguns exemplos, opiniões pessoais, ideias e provocações sobre a política, a justiça e a economia. Independentemente do sucesso que o livro venha ou não a ter, garanto que escrevê-lo serviu-me como uma excelente forma de terapia nos tempos difíceis que correm.

Tinha algum público-alvo em mente?

Primeiro, quero chegar aos indignados que demonstram todos os dias real vontade em promover as mudanças que o nosso país muito precisa. Com o livro, tornei-me membro oficial desse grupo e apresentei algumas propostas e ideias à espera que outras possam surgir a seguir. Simultaneamente, fiz os possíveis por provocar seriamente e sem pudor todos aqueles que tentam impedir estas mudanças. Distribuir carapuças para muitos as enfiarem nas respectivas cabeças, inclusivamente todos os indignados comodistas e cronicamente resignados cuja passividade também faz parte da força de bloqueio.

Arranjou uma forma original de divulgar a sua própria editora que criou especialmente para este livro, utilizando os espaços para comentários das notícias nos sítios dos principais jornais nacionais. Como tem sido a aceitação?

Basicamente, essa forma de divulgação serve apenas para incentivar as pessoas a visitar o sítio da 100editora e posso dizer que tem resultado muito bem. Mas tem sido a “mensagem do autor” e a “introdução” do livro, disponibilizadas no próprio sítio, que mais comentários têm originado e que de certa forma mais têm incentivado as pessoas à compra.

De uma forma sucinta, pode explicar-nos o que propõe?

É muito simples. Mudança! E não me refiro ao cliché já gasto de que é preciso mudar a mentalidade dos portugueses. Falo da instauração de uma democracia verdadeiramente representativa, bem como da disponibilidade de um sistema judicial obrigatoriamente eficaz, eficiente, imparcial e universal. Isto porque todas as outras mudanças têm que partir destas duas bases. Sem elas, qualquer medida que tente prosseguir a vontade democrática estará sempre condenada ao fracasso. Daí que a política actual seja, na minha opinião, totalmente recheada de hipocrisia porque estas bases estão completamente ausentes. Seguindo a mesma linha de raciocínio, todas as medidas económicas propostas no meu livro só fazem sentido nesse contexto democrático e justo.

Porque não envia uma cópia a cada um dos deputados na Assembleia da República?

Boa pergunta. Se calhar não o faço com o receio de ser exilado. Esse risco nunca deixa de existir, não é verdade? Mas… ao menos eles que paguem pelo livro.

Os políticos não vêm do estrangeiro. São portugueses. Quer isto dizer que há algo (muito) errado em nós, enquanto povo e sociedade?

Provavelmente muitos portugueses honestos e de boa vontade fazem essa mesma pergunta todos os dias. Não coloco em causa o princípio de que cada qual responde pela sua própria consciência, em função das suas escolhas individuais, mas colectivamente parece que estamos mesmo a falhar. Na minha opinião, isso acontece porque temos líderes incapazes e interesseiros, que não zelam pelo bem da nossa sociedade e pior que tudo, servem de exemplo e desculpa para os outros na prática do mal.

Como escritor, alguma vez sentiu “receio” de por em causa o sistema instalado?

Pessoalmente não. Senão não tinha colocado o meu nome no livro. Apenas penso nas eventuais consequências da minha iniciativa quando, por vezes, os meus familiares fazem questão de me transmitir os seus próprios receios por mim, mas mais no que respeita à minha carreira profissional. De resto, o meu maior medo prende-se com o tipo de sociedade em que a minha filha vai crescer. A sua pergunta deve-se ao facto de não ter colocado a minha foto inteira no livro? Fi-lo por simbolismo do tal receio que muitos portugueses têm em agir mas também porque para mim não é a cara ou o nome das pessoas que interessa. O segredo está nas escolhas individuais de cada uma e no efeito comunitário de todas elas na sociedade.

Refere muitos exemplos de corrupção, nepotismo, desvio de dinheiros públicos, muitos são até do domínio público. Porque acha que ainda não assistimos a uma revolta generalizada?

Essencialmente por dois motivos. Primeiro, porque há muito mais gente a viver à custa do actual regime do que podemos pensar. O problema mais grave é que alguns fazem-no inconscientemente enquanto outros não conseguem sequer imaginar as coisas a funcionar de outra forma. A corrupção, os favores, as cunhas e as clientelas são a forma natural de agir para muita gente. Em segundo lugar, quem não faz parte dessa elite privilegiada tem um medo natural de colocar em causa a segurança e a certeza do pouco que tem. No fundo, apesar de desiludido, acabo por entender este sentimento, especialmente quando ocorre entre aqueles que têm famílias para sustentar. Hoje em dia, existe um terceiro grupo que alcançou uma grande expressão e que, encontrando-se encurralado, optou finalmente por aderir em força aos movimentos de indignação. São os que estão de mãos a abanar, sem perspectivas de futuro e sem nada a perder. Esses são os que fazem mais barulho neste momento.

Defende o fim da “partidocracia”. Que alternativa, então?

Alternativa? A democracia! Possibilitar aos cidadãos a escolha directa do primeiro-ministro, dos membros do governo, dos deputados da Assembleia da República e dos responsáveis máximos das principais instituições reguladoras e fiscalizadoras do nosso país. A eleição de pessoas directamente para os cargos políticos em detrimento da opção forçada por um partido que depois as escolhe em função dos seus próprios interesses. A possibilidade de concurso numas legislativas não devia estar restringida apenas a organizações exclusivamente políticas. Além disso, defendo a premissa essencial de que o exercício de cada cargo político deve ocorrer em regime de exclusividade, sem possibilidade de conciliação com qualquer actividade particular. Ou se está na política a zelar pelos interesses da comunidade ou se está no privado a trabalhar pelos interesses particulares.

Pelo que se pode ler no seu livro, considera que o Presidente da República deveria ser mais interventivo. Porque acha que isso é raro acontecer?

Se lhe perguntássemos directamente a ele será que respondia? Aposto consigo em como essa não seria certamente a altura mais apropriada para se pronunciar. Raramente se encontra um momento conveniente para isso… à excepção da campanha eleitoral, claro. À semelhança dos seus antecessores, é mais um daqueles personagens com projecção mediática que gosta muito de dizer o que “tem que se” fazer, nas alturas escolhidas pelo próprio e num contexto controlável, sempre com o mesmo discurso recheado de banalidades e generalidades sem qualquer consequência prática. Todos eles partilham a paternidade dos nossos problemas actuais e assumem o papel de anciãos da partidocracia. Os sábios da política que nada fazem mas que dizem o que os outros “têm que fazer”. Em troca gozam de privilégios vitalícios. É justo.

A contestação social está aí. Já não passa apenas pela rua, mas sim pela tecnologia. Acha que isso vai mesmo determinar uma mudança, num futuro breve?

Espero sinceramente que o progresso tecnológico facilite em breve muito mais do que a mera contestação social. Devia ser antes orientado para o desenvolvimento de ferramentas interactivas de participação democrática através das quais as pessoas pudessem intervir regularmente na tomada de decisões políticas relevantes, como os referendos populares que tão pouco uso têm tido.

Por exemplo, o recente discurso de Passos Coelho motivou uma onda de reacções virtuais no facebook. Acha que os políticos estão conscientes disto?

Aposto que estão virtualmente muito preocupados. Do lado de cá, temos todos muita pena que algumas das decisões tomadas para o Orçamento de Estado de 2012 não sejam também virtuais.

Acredita que é possível acabar com a corrupção em Portugal?

Não. Sem a mudança profunda do nosso regime democrático e sem a reforma indispensável da nossa justiça, nunca na vida. Se porventura essas mudanças viessem a concretizar-se, nesse caso também não se conseguiria exterminar totalmente o fenómeno mas seria possível, sem margem de dúvidas, reduzi-lo a uma frequência insignificante. O que mais me chateia é que as medidas necessárias não são complicadas de conceber ou sequer de aplicar. O que não existe é vontade.

Como vê o futuro do nosso país?

Não lhe consigo dizer. Padeço de muitas limitações ao nível das minhas capacidades proféticas, ao contrário de alguns que conseguem ter certezas para daqui a dez anos. Apenas temo que sem mudanças radicais na política, na justiça e na economia, o cenário tenha tendência a agravar-se. Contudo, a minha fé reside precisamente na possibilidade dos portugueses de boa vontade conseguirem, de alguma forma, concretizar essa “revolução” num futuro próximo. Tal como nos Descobrimentos, pode ser que tenhamos uma vez mais a coragem de tomar a iniciativa mundial em algo inovador. Desta vez, a criação e o desenvolvimento de um regime político realmente vocacionado para a satisfação do interesse popular e que promova a justiça e o desenvolvimento económico-social do nosso país.

Qual vai ser o seu próximo projecto?

São três na realidade. O primeiro ainda é este livro que tem que abandonar as fraldas. A sua colocação no circuito comercial tradicional só vai começar daqui a um mês. O segundo passa pela criação de um portal informático cívico através do qual, com a ajuda de muitas outras pessoas, vamos tentar replicar um modelo alternativo de representatividade democrática. Realizar um ensaio ao seu funcionamento e afiná-lo ao longo de dois anos. O terceiro é um novo livro no qual vou tentar explicar pormenorizadamente como se aplicam as ideias e as medidas genéricas sugeridas neste primeiro, comparando cada uma com o nosso cenário actual e analisando o passado histórico recente. Assim Deus queira.

Obrigado pela entrevista.

__________________________

Marco Dias trabalha há mais de nove anos em auditoria financeira numa Sociedade de Revisores Oficiais de Contas (SROC) em Viseu. É membro estagiário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas e membro efectivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas. Começou o curso de Revisores Oficiais de Contas em 2006 e entrou agora no último ano de estágio. É licenciado em Economia pela Faculdade de Economia do Porto, em 2002. Não tem qualquer fidelização partidária e assume-se católico praticante. O livro tem 114 páginas no formato A5, custa 8,90 euros (com oferta dos portes de envio) e pode ser encomendado pelos contactos 961700513 (14h00-18h00) ou pelo e-mail Email

Artigos Relacionados
Barry Hatton
Edição 681 ( 9 Jun 2011), Sem Comentários »
Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.