PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaA pé, pelos caminhos de Portugal!

Nuno Ferreira

A pé, pelos caminhos de Portugal!

Em Fevereiro de 2008, o jornalista Nuno Ferreira, 49 anos, inicia uma longa e demorada caminhada a pé através de um território que é habitualmente chamado “Portugal profundo”. Ao longo da viagem, que se prolonga por quase três anos, é tomado por vagabundo, contrabandista e peregrino. O percurso começou precisamente aqui no Algarve, em Sagres, e o levou até ao Minho pelos trilhos de um país esquecido e desertificado. No próximo mês de Novembro, Nuno Ferreira vai lançar o livro «Portugal a pé» no qual relata toda a aventura e encoraja os leitores a seguir-lhe os passos…
Bruno Filipe Pires, Edição 699 (13 Out 2011), Sem Comentários »

Que te levou a percorrer Portugal a pé sozinho?

Nuno Ferreira: Já tinha há muito tempo a ideia de atravessar o interior de Portugal, o dito país profundo, mas a rotina do jornal diário onde trabalhava não o permitia. Quando larguei o jornal «Público» ao fim de 17 anos, achei que estava na altura de reencontrar o meu país com o tempo e o ritmo que o jornalismo num diário não me permitia. E percebi que a caminhada se ajustava perfeitamente a esse projecto e à minha personalidade. Gosto de ir andando e ir de encontro às pessoas que normalmente não vês, não encontras, que vivem fora do radar dos grandes órgãos de comunicação.

Agora que já concluíste todas as etapas, achas que é uma boa ideia ou uma maluquice?

É fantástico. Vais acompanhando o quotidiano das pequenas terras do teu país numa descoberta permanente.

Começaste no Algarve, porquê?

Comecei no Algarve porque na altura em que podia iniciar a viagem, em Fevereiro, era a região onde o tempo estava melhor.

Que impressão te deixou esta região?

Fui descobrindo vários Algarves, embora a clivagem maior seja entre o interior serrano e o litoral. O despovoamento das serras e mesmo do barrocal deixou-me triste. Em contrapartida, a Costa Vicentina e as ilhas da Ria Formosa são do melhor que Portugal tem para oferecer.

Organizaste um itinerário que te levasse através do país profundo, ou foste improvisando ao sabor da aventura?

Como a viagem foi inicialmente organizada em colaboração com a revista «Única» do «Expresso», tive de estabelecer um itinerário inicial, mas depois percebi que o melhor era ir ao sabor do que ia acontecendo nas terras. De qualquer forma, fui sempre muito mais pelo interior do que junto ao litoral.

Tens ideia de quanto gastaste nesta viagem?

Gastei muito. Não levava tenda, não dormia ao relento, não me privava de uma boa cama.

O que mais te impressionou pelos caminhos de Portugal, quer pela positiva, quer pela negativa?

O que mais me impressionou foi o espírito de resistência e quase de missão de muitos portugueses que continuam a querer fazer do interior a sua casa e mantêm vivos projectos de teatro, jornalísticos, artísticos, fora dos grandes centros, lutando contra o esquecimento e abandono.

Qual foi a coisa mais bizarra que te aconteceu?

O mais bizarro foi ser interpelado e identificado pela GNR pelo simples acto de estar a andar a pé e de mochila às costas…

Olha, esta jornada foi meramente jornalística, ou também uma viagem emocional?

As duas coisas. Quanto mais ia avançando pelo território, quanto mais a viagem se prolongava, mais emocional se ia tornando. Em determinados lugares, as pessoas perguntavam porque é que eu não ficava lá a viver já que gostava tanto da zona? Noutras povoações, pessoas que eu não conhecia de lado nenhum ofereciam-se para me ajudar, para me dar pernoita.

Aprendeste alguma coisa que não sabias, sobre nós próprios, portugueses?

Estou sempre a aprender. A viagem a pé permitiu compreender melhor aquilo que separa um minhoto de um algarvio, por exemplo, mas também aquilo que os aproxima. Os portugueses, por exemplo, são extremamente críticos do seu país no que respeita ao estado da economia ou da política. Mas ao mesmo tempo são extremamente ciosos de serem portugueses. Lembro-me que percorri uma estrada na linha fronteiriça entre o Minho e a Galiza e reparar no pormenor da capela ou da casa que mesmo junto ao campo galego exibiam orgulhosamente a bandeirinha portuguesa. Como quem diz: “Amigos, amigos, mas eu sou português. E tenho orgulho em sê-lo!”

As pessoas mudam muito conforme os sítios (por exemplo, de sul para norte)?

As pessoas mudam muito inclusivamente dentro das regiões. Quem anda a pé apercebe-se dessas discrepâncias. No Algarve, por exemplo, um habitante de Lagos ou de Aljezur tem uma forma de estar bem diferente de uma pessoa de Alcoutim ou Castro Marim. Existe uma matriz (a língua, a bandeira) mas as formas de estar e viver são muito diversas. Junte-se um serrano de Castro Daire, um alentejano da Amareleja, um minhoto de Ponte da Barca e um transmontano do planalto mirandês e compare-se as experiências de vida, por exemplo.

De uma forma geral, que viste? Um país abandonado?

A população passou a concentrar-se no litoral e nos grandes centros. Como a minha viagem foi feita muito pelo interior, tive a possibilidade de vivenciar os efeitos da desertificação. Encontra-se aldeias vazias ou quase, uma população muito envelhecida e muitas marcas da emigração para o estrangeiro, sobretudo na Beira Interior e em Trás-os-Montes. Num dia de caminhada podes atravessar uma aldeia com 150 casas ou mais ainda e encontrar duas ou três pessoas.

Achas que os nossos decisores políticos em Lisboa conhecem estas realidades?

Gostava de acreditar que sim.

E o resto da sociedade? Será que Portugal hoje se enxerga a si próprio?

Hoje em dia, penso que tal como noutras sociedades, os portugueses enxergam-se uns aos outros através da televisão e do contacto na Internet.

Não é uma visão bonita, nem optimista, pois não?

O bonito é que se andarmos por aí a pé, constatamos que temos alguns dos rios menos poluídos da Europa, paisagens e gastronomia de uma grande riqueza e diversidade para um país tão pequeno. O feio é constatarmos que não conseguimos, como nação, tirar partido desse facto.

Fala-nos um pouco do livro. Foi difícil fazer uma selecção do material?

Foi difícil seleccionar as fotos, porque tinha milhares. O texto é uma crónica que narra as peripécias da viagem do princípio ao fim. Como não tive exigências de tamanho, pude escrever o que me apeteceu. Ao todo, são quase 500 páginas, com bastantes imagens e dez mapas que especificam o meu trajecto e pretendem ajudar o leitor a seguir a caminhada de sul a norte.

O teu livro tem um objectivo, uma mensagem? Tens alguma expectativa?

Neste livro, que vai ser editado por uma editora criada para o efeito pelo portal «Café Portugal», pretendi sobretudo narrar o que fui encontrando ao sabor da caminhada. Cada leitor tirará depois as ilações que quiser. Depois, vou escrever um segundo livro, mais pequeno, para a Fundação Manuel dos Santos onde reflectirei sobre o Portugal que encontrei.

Qual vai ser o teu próximo projecto?

Gostava de continuar a escrever sobre Portugal e os portugueses. Fiquei com a sensação que deixei coisas, pessoas, lugares para trás, por visitar ou revisitar…

________

“A princípio estava cheio de medo porque não tinha grande actividade física”, recorda Nuno Ferreira.

“A minha obsessão é andar pelo Portugal onde ninguém entra. Eu passo por sítios onde as pessoas olham para mim e ficam de boca aberta. Perguntam: o que estás aqui a fazer? Nunca ninguém vem aqui! Eu digo, vim precisamente por isso. Quero andar por partes do país onde normalmente os turistas não vão”, diz.

A carreira profissional de jornalista que soma quase duas décadas de experiência, fê-lo, muitas vezes, sair da redacção ao encontro de Portugal.

Sagres, no Algarve, foi o ponto de partida desta aventura, relatada todos os dias no blogue «Portugal a Pé» ainda on-line em http://portugalape.blogspot.com/

O percurso pelo Algarve fez-se entre a costa e a serra. “Achei o Algarve muito descaracterizado. A Serra do Caldeirão quase não tem nada de típico», afirma. “Ali não há vivalma, além de hastes queimadas e um ou outro monte abandonado”.

“A estrada que liga Lagoa a Silves é só asfalto e betão. Viaturas a circular em velocidade junto a sinais de 50, as janelas fechadas, pedais a fundo. Muitos automobilistas observavam-me com estranheza. Um idoso conduzindo uma carrinha insistiu em querer a berma para ele e quase me obrigou a trepar as ervas. Valeram-me os laranjais de um e do outro lado da estrada.”

"A frase que mais me ressoa à memória é: A pé? Nem uma bicicleta tem? O caminhar ainda é interpretado como sinal de pobreza e vagabundagem. Andar é para os indigentes", conclui.

Artigos Relacionados
«Southern Tracks»
Bruno Filipe Pires, Edição 694 ( 8 Set 2011), Sem Comentários »
Relógio da Torre do Monte do Bicho
Edição 690 (11 Ago 2011), Sem Comentários »
Barry Hatton
Edição 681 ( 9 Jun 2011), Sem Comentários »
Várzea da Gonçala
Edição 677 (12 Mai 2011), 1 Comentário »
Fernando Silva Grade critica
Bruno Filipe Pires, Edição 658 (30 Dez 2010), Sem Comentários »
Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.