PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaTeatro sem palavras

...Ou a magia de Leszek Madzik

Teatro sem palavras

A mais trágica história de amor portuguesa é revisitada no novo espectáculo da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve. Chama-se «Ardente – Memorial para Pedro e Inês de Portugal», e estreia no próximo dia 1 de Outubro, pelas 21h30, no Teatro Lethes, em Faro. É um espectáculo dirigido por um dos mais prestigiados criadores teatrais europeus da actualidade, o polaco Leszek Madzik, 66 anos. Ao longo das últimas quatro décadas, Madzik tem desenvolvido um teatro sem palavras, onde as histórias são contadas pela música, pelo silêncio, pelos jogos de luz e pela gestualidade dos actores.
Edição 696 (22 Set 2011), Sem Comentários »

“Estamos a falar de um sujeito que é bastante conhecido no mundo ocidental. É reconhecido como um especialista neste tipo de teatro sem palavras, que é muito simbólico. Não é um teatro para as massas. É um teatro para uma pessoa para cada vez, sendo que podem estar mil pessoas a assistir, é sempre dirigido para uma de cada vez. Os espectáculos deste homem são para ser vistos/lidos como quem lê a Bíblia. É um exercício espiritual individual”, começa por explicar Luís Vicente, director artístico da ACTA, a propósito do cunho pessoal de Leszek Madzik.

“Podemos partilhar a leitura da bíblia com outras pessoas, mas o sentido e a medida daquilo que nos toca é muito pessoal. Podemos ler o evangelho de João, e partilhar isso, mas que o experimentamos é diferente”, teoriza.

Em boa verdade, há sempre algo de sagrado e também um certo erotismo no trabalho de Madzik, que estudou Belas Artes em Kielce e depois História de Arte na Universidade Católica de Lublin.

“Sugeri-lhe que tratasse o episódio do Pedro e da Inês, que ele conhece desde os tempos do liceu. Segundo muitos especialistas, este é o terceiro tema mais trabalhado nas artes e literaturas de todo o mundo, sendo que o primeiro é Jesus Cristo, e o segundo é Napoleão”, acrescenta Luís Vicente.

Mas que tem esta história de especial? Tudo remonta ao século XIV. Dom Pedro (1320-1367), herdeiro do trono de Portugal, apaixonou-se perdidamente por uma das aias da sua legítima esposa, Dona Constança. Uma dama nobre galega chamada Inês de Castro (1325-1355).

A relação começou a ser comentada e mal aceite tanto pela corte como pelo povo. Sob o pretexto da moralidade, o rei D. Afonso IV não aprovava o romance. Além disso, estava preocupado com a diplomacia – já que Inês era filha de um monarca poderoso, o mordomo-mor do rei D. Afonso XI de Castela. Mais tarde, após a morte de Dona Constança, o casal clandestino teve quatro filhos.

Reza a lenda que o rei e pai de D. Pedro, pressionado pelos seus conselheiros, mandou matar D. Inês a sangue-frio, em Coimbra, devido a temer complicações políticas entre os reinos vizinhos.

Mais tarde, D. Pedro I, já então rei de Portugal, perseguiu e castigou brutalmente os assassinos de D. Inês, e construiu um fabuloso túmulo no convento de Alcobaça para ambos. Nunca esqueceu, nem perdoou.


A tétrica cerimónia da coroação e do beija-mão, um mórbido prestar vassalagem à rainha-cadáver D. Inês de Castro, castigo que D. Pedro teria imposto à sua corte, tornou-se numa imagem imortal no imaginário popular português.

“Como é um caso tão extremo, há um certo risco de o espectáculo se tornar uma coisa exagerada. Não me interessa o que aconteceu em si, mas sim a motivação. Interessa-me mais o clímax, as tensões, do que os factos”, explica Leszek Madzik.

Na sua opinão, considera que esta história só poderia acontecer nos países mediterrânicos do sul, porque é “uma situação extremamente emotiva. É quase uma explosão de irracionalidade”.

E isso torna-a apta para o seu teatro sem palavras. Madzik acredita que não são necessárias. Interessa-lhe explorar estados de espírito, despertar sentimentos no espectador, sem a contaminação da voz. “Interessa-me que o espectador atinja um estado de reflexão, de contemplação, e não de racionalização”.

E não se perderá algo? “Há 40 anos que me fazem essa pergunta. O que acho é que a palavra é algo que interfere” com a forma de perceber o mundo. “A mim interessa-me o que está antes disso. Antes de falar, a gente sonha, pensa, vê.

É difícil responder a essa pergunta, teríamos de definir o que é o teatro”. O encenador está particularmente satisfeito com a música original escrita pelo contrabaixista de jazz Zé Eduardo, elemento fundamental nos seus espectáculos. Por outro lado, os actores nunca existem como tal. “Funcionam como imagem, como elemento cenográfico. Têm quase de perder tudo o que sabem na perspectiva clássica do que é representar”, explica.

No entanto, Madzik diz-se muito satisfeito com a entrega e dedicação do colectivo algarvio.

Apesar de ser considerado um perfeccionista, “durante o acto de criação, tenho muitas dúvidas, muitas incertezas. Uma das razões para toda esta inquietação é que nunca escrevo argumentos para os meus espectáculos. Tudo se constrói durante o trabalho de cena, é quando tudo se concretiza. Nunca sei, até ao final, o que é que vai sair, até onde vou chegar”, confessa.

“Vou pensando durante o trabalho com a equipa. Há ideias, mas nunca nada escrito, nem palavras, nem esboços, nada”, diz.“O difícil é que em todos os meus espectáculos tento chegar a uma simplificação da imagem. É claro que há sempre a tentação de tornar tudo visualmente mais exuberante, mais ornamental mais objectivo, que no fundo é o que acontece hoje em dia”, em que vivemos rodeados pelo marketing, pelo design, pela publicidade.

“No palco, o meu objectivo é sempre fazer o percurso inverso, tornar tudo mais assertivo”, diz. “Tento sempre limpar o que é acessório, para que o público possa chegar à essência das coisas”.

Outra característica das suas encenações é que é tudo muito estático, muito lento. “É uma opção estética no movimento, é como se fosse um sonho, onde tudo se passa em câmara lenta”, diz.

“Interessa-me que o espectador atinja um estado de reflexão, de contemplação, e não de racionalização. Uma situação de quase transe, do que a racionalização da história. Seria interessante que o espectador no final não conseguisse contar o espectáculo”.

À parte do teatro, ou não fosse um apaixonado pela luz, Leszek Madzik, dedica-se à fotografia.

Interessa-lhe sobretudo arte sacra e tumular, e naturezas mortas. Madzik integra a equipa promotora de Lublin – Capital Europeia da Cultura, 2016. O seu próximo trabalho vai ser a tragédia grega «Antígona» de Sófocles. Mas antes, vai apresentar este espectáculo no festival internacional de Teatro de Lublin, já em Outubro.

Quem acompanha o trabalho da ACTA ao longo dos anos, tem a sensação que existe uma obsessão com temas históricos.

“Dito dessa forma, não concordo. Não são propriamente temas históricos. Nos critérios da programação existe sim a utilização da História como veículo de reflexão sobre problemáticas actuais. Isso sim, é verdade.”

Acontece o mesmo com este espectáculo? “No meu ponto de vista, há aqui um problema de base. O conflito essencial no episódio da Inês de Castro é um assunto de Estado. Por outro lado, temos as razões do amor. Ambas são absolutamente incompatíveis, e neste caso ditaram que a relação dos amantes fosse completamente aniquilada”.

“No fundo, é o que os Estados e os governos passam a vida a fazer às pessoas. Neste momento em particular que estamos a viver, são as razões financeiras” que estão a causar instabilidade social e uma crise sem fim à vista.

“É algo que já o próprio Karl Marx tinha previsto. Por uma questão de honestidade intelectual, devemos reflectir sobre este fenómeno, que é o capital financeiro a tomar conta e a apoderar-se dos Estados. E nós estamos no meio deste conflito. Somos os peões que estamos a ser aniquilados”, compara.

Leszek Madzik concorda. “É evidente que chegámos onde estamos porque de repente se começou a sobrevalorizar as coisas materiais e os objectos de uma forma absurda. Perdeu-se um pouco o valor espiritual do homem. Vivemos os dias da ganância. E esta sobrevalorização do dinheiro tem provocado um grande desequilíbrio nas nossas vidas”, lamenta.

Finalmente, resta dizer que o teatro sem palavras é “uma novidade absoluta” para a ACTA e é “algo que não se vê com frequência em Portugal”, garante Luís Vicente.

Este espectáculo fecha a temporada, mas o próximo já está na calha. Vai estrear em Dezembro e inicia um novo ciclo.

Chama-se «Laços de Sangue» (no original «The Blood Knot», de 1961), um texto do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, que ficou conhecido por apoiar publicamente a luta anti-segregação racial (Apartheid). Terá interpretação do próprio Luís Vicente e do actor Mário Spencer.

____

“ARDENTE – Memorial para Pedro e Inês de Portugal”no próximo dia 1 de Outubro, às 21h30 no Teatro Lethes, em Faro. O espectáculo estará ainda no Teatro Lethes nos dias 02 às 16h00 e 05, 06, 07 e 08 de Outubro às 21h30. 
Tem a duração de 60m, sem intervalo, e é indicado para maiores de 12 anos. O preço dos bilhetes é de €10, com os descontos habituais. A interpretação é de Bruno Martins, Carlos Pereira, Glória Fernandes, Liza Veiga, 
Luís de A. Miranda, Luís Manhita, Tânia Silva e Zé Alegre. A música original é de Zé Eduardo e a execução plástica de Tó Quintas. 


Artigos Relacionados
VATe
Edição 703 (10 Nov 2011), Sem Comentários »
Tó Quintas
Bruno Filipe Pires, Edição 680 ( 2 Jun 2011), Sem Comentários »
«Der Sturm – A Tempestade»
Bruno Filipe Pires, Edição 666 (24 Fev 2011), Sem Comentários »
Um Homem Singular
Edição 646 (30 Set 2010), Sem Comentários »
A Cova dos Ladrões
Bruno Filipe Pires, Edição 621 ( 8 Abr 2010), Sem Comentários »
Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.