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«Southern Tracks»

Bem-vindo à (nossa) natureza!

No interior, palavra que ganhou um significado pejorativo no Portugal pós-moderno, esconde-se a verdadeira riqueza do país. Por trilhos mais ou menos escondidos (e esquecidos), em lugares só acessíveis a pé, há ribeiras de água pura, fontes santas, menires pré-históricos, e paisagens virgens que são autênticos paraísos para a vida selvagem. Locais que Vitor Pereira passou os últimos 30 anos a explorar e que conhece como a palma da mão. Campista, aventureiro, fotógrafo e observador de aves, Pereira é também um experiente guia turístico. Está a lançar o projecto «Southern Tracks» que pretende redefinir o conceito de turismo na natureza. Não recomendado a comodistas!
Bruno Filipe Pires, Edição 694 ( 8 Set 2011), Sem Comentários »

Quem entra na vidreira contígua à autarquia de Portimão, dificilmente saberá que ali está uma das poucas pessoas que melhor conhece os mais belos locais do sul de Portugal.

Os jipes à porta, às vezes com caiaques no tejadilho, poderão dar uma pista. Os tempos são difíceis para o negócio de família. Vitor Pereira não esconde alguma nostalgia, mas em breve pensa dedicar-se exclusivamente ao que realmente gosta de fazer – “estar no meio do mato”, diz.

Para além da vidreira, herdou do pai o gosto pela natureza. Em criança, lembra-se dos acampamentos em noites com morcegos. Por estranho que pareça, foi expulso dos escuteiros. Não era menino de estar enfiado em reuniões de igreja, e portanto fugia para ir acampar, fizesse chuva ou sol. Depois, “continuei pela vida fora. Isto é um modo de estar”.

Vitor Pereira, 45 anos, começou a trabalhar como guia turístico no pico dos safaris de jipe no Algarve, na década de 1980. “Sempre achei que aquilo era muito pouco. Era uma coisa muito insípida, muito básica”, recorda. Entretanto, fez outras aventuras por conta própria. Percorreu África, que já na altura lhe pareceu “muito contaminada pelos valores do homem branco e pelos efeitos da descolonização”. Ficou aquém das suas expectativas.

Virou-se para o seu país. Um destino frequente era a Serra do Gerês, às vezes debaixo de neve, “para ver o lobo”. Esteve perto, mas nunca conseguiu…

O que conseguiu foi amealhar todo um conhecimento geográfico que agora quer partilhar com outros amantes (fanáticos) da natureza. “Este tipo de produto é o futuro, em todos os aspectos, até pela motivação que se cria. As pessoas ao conhecerem estes espaços vão querer descobrir mais. E ficam sensíveis para a sua preservação”, garante.

“Acho que o importante é que é preciso saber gerir este património” de forma sustentável. Um exemplo. “Eu nunca vou ao mesmo local duas vezes. Não o faço porque sei que os animais e a vida selvagem vão começar a sentir-se incomodados com a nossa invasão do seu espaço. Sei que com a minha presença, se calhar os texugos não vão sair das suas tocas. Sei que se os veados sentirem o cheiro da nossa fogueira, ou se ouvirem o barulho das vozes, vão fugir para outros sítios”, diz.

Uma das apostas de Vitor Pereira são os chamados “Walking Safaris”, uma forma ideal para explorações profundas. “Isto permite-nos deslocarmo-nos para ver paisagens incríveis, numa sensação de afastamento da civilização.” É o ideal para quem gosta de observar aves, por exemplo, na barragem do Alqueva, especialmente no Inverno, quando está cheia de espécies migratórias.

O guia está convicto que este é um país atraente para o turista da natureza, sobretudo o estrangeiro. “Na verdade, as imagens que divulgo” na Internet “são cenários que ninguém associa a Portugal”.

Hoje é sabido que “desvirtualizámos o sul. Destruímos a cultura tradicional. O urbanismo foi completamente devassado. As praias são o que são, embora ainda restem algumas só acessíveis de caiaque, onde se pode ter um vislumbre do que é realmente o Algarve. Depois temos cidades onde se perdeu completamente a noção do que é o bem-estar”, crítica.

“Este tipo de património paisagístico não é promovido”. As entidades oficiais “têm a vista um pouco curta nesse aspecto e não percebem o seu potencial. Mas por um lado, eu até agradeço. Porque tenho medo do que possam fazer com estes lugares.

Imagine que há um amigo de um amigo qualquer do Governo que veja algures uma grande oportunidade de negócio, e mande logo arrasar tudo”, ironiza.

E que lugares são esses? A lista é longa e sugestiva. Um dos predilectos de Vitor Pereira é a Ribeira do Vascão. Faz fronteira entre o Nordeste algarvio e o baixo Alentejo.

“É na zona que chamo o outback português. Tem um poder incrível de captar a nossa imaginação.”

Nas noites frias de Maio, há uma rã, “a rela meridional, que tem um canto característico que é espectacular.

Às vezes ouvem-se concertos nocturnos de raposas a uivar na época do acasalamento. Há uma altura do ano que quando amanhece, a passarada é tanta que é uma autêntica sinfonia!”, diz.

No outback português, as aves são impressionantes – o bufo real (o maior mocho do mundo), o milhafre real, a águia imperial ibérica, o peneireiro cinzento (uma espécie de falcão) são visões “incríveis”.

“Outra riqueza que temos é a ausência de poluição luminosa. Temos um céu como se vê no deserto do Sahara. Já lá estive, portanto posso comparar. É uma noite incrivelmente límpida e cristalina”, para a astronomia de ocasião.

Outro sítio que destaca é a Ribeira da Foupana, nascida na Serra do Caldeirão é um dos afluentes do Guadiana. É considerada ainda uma das poucas ribeiras selvagens do país.

“É onde ainda se pesca a lampreia. Em Abril, os barbos sobem o rio”, num ritual parecido ao dos salmões. Apesar da secura da paisagem, há hortas viçosas em sítios inesperados, que “fazem remontar ao tempo dos árabes”, diz.

A Ria Formosa, nos seus 40 quilómetros de extensão, também é um pequeno paraíso. Pereira chama-lhe o “Caribe”, devido às águas pouco profundas e baixios de areia, “onde ninguém vai, mesmo em pleno Verão”. Um percurso que aconselha é de Cacela Velha à barrinha (a ponta da ilha de Faro).

“O estilo de vida aqui ainda é muito parecido com o que sempre foi - a sobrevivência com aquilo que se tira do mar”, diz. “Dá para apanhar berbigão e ostras para abrir na fogueira.”

Para quem se preocupa com a saúde, o guia recomenda as fontes santas de água ferrosa da Serra de Monchique. “Estão em locais que outrora tiveram uma vida muito intensa e que hoje estão esquecidos. Há uma fonte onde se faziam bailaricos e se vendia pão. Chegava a haver muitos burros lá amarrados. Hoje ainda lá estão as argolas”, conta.

“Nestes sítios mais remotos, entre as pessoas mais antigas, ainda há umas certas práticas que se mantêm vivas. Portanto, urge ir lá falar com elas.

O melhor destes passeios é entrar numa taberna e ouvir os relatos da vida de outrora”, diz.

Um pouco por todo o Algarve, especialmente ao redor de Silves e próximo de Sagres, encontram-se menires pré-históricos. “São vestígios de sociedades agro-pastoris.

Alguns menires têm incrustações de simbologia tribal. Alguns até têm túmulos próximos.” Outro “pedacinho lindíssimo de Portugal é a costa que começa em Sagres e vai por aí acima até Tróia”, a maior extensão de areia da Europa.

“Passamos por arribas de arenito incrivelmente belas, parecem autênticas esculturas”, e pelo caminho ainda se podem admirar as cegonhas no Cabo Sardão que segundo consta é o único local no mundo onde nidificam nas rochas no mar.

Na empresa que está agora a formalizar, Pereira já tem alguns percursos pré-definidos. O mais barato custa €50 por pessoa e dura cerca de meio-dia, pode ser em terra ou no mar.

Para respeitar ao máximo a integridade da natureza, os grupos nunca ultrapassam os 8-10 elementos. O guia custa 70 euros de preço-base. O resto é alimentação e despesas com o transporte...

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