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Teresa Paulino

A escultora do Aeroporto

As esculturas do Aeroporto de Faro são das poucas peças de arte pública no Algarve que conquistaram o estatuto de ex-libris da região. Quase 10 anos depois de ali terem sido colocadas, “os observadores” continuam a ser um foco de grande curiosidade. Não tão conhecida como esta obra, é a autora do projecto, a escultora Teresa Paulino – apesar de ter outros trabalhos um pouco por todo o Algarve. Fomos conhecê-la a propósito da exposição retrospectiva «Retalhos e Retratos» que vai estar patente de 6 de Setembro a 22 de Outubro no Auditório de Olhão.
Edição 692 (25 Ago 2011), 65535 Comentários »

Já é habitual. De anónima passa a centro das atenções, assim que se sabe que é a autora daquelas simpáticas esculturas na rotunda mais internacional do Algarve. “Ainda há pouco tempo estive na inauguração de uma galeria e quando disse que fui eu que as fiz, foi uma festa”, diz.

A história remonta ao tempo em que Teresa Paulino venceu o concurso de ideias dirigido aos alunos do curso de Design da Universidade do Algarve, no já distante ano de 1998. Na verdade, “quando fiz o projecto, nunca pensei que fosse escolhido. Foi uma surpresa quando o director do Aeroporto me telefonou a dizer que o iam fazer”, recorda.

São 12 figuras ao todo. Estão lá desde finais de Janeiro de 2001, mas ainda há quem se arrisque a atravessar a estrada para as ir ver de perto. “Sim, e vão muitas pessoas ao Aeroporto perguntar quem é que fez aquelas esculturas. E depois contactam-me. Adoram-nas”, diz.

“Normalmente, quem conhece e quem liga àquilo são os estrangeiros”, diz, “os portugueses ou nem foram lá, ou passa-lhes despercebido”, diz de sua experiência.

“Já fiz uma parecida para um jardim particular em Lagos”. Um inglês gostou tanto delas que quis “a figura de um homem e de uma criança” no mesmo estilo rudimentar.

Na altura, “andei a ver aqui no Algarve se havia alguma oficina com meios” necessários para trabalhar o calcário e dar forma às peças de 3 metros de altura. “Todas me diziam que era impossível”. Pediu a opinião do senhor Bota Filipe, do Centro de Arte Contemporânea de Almancil (ZEFA), que considerou o projecto impossível de fazer devido às dimensões.

“E disse-me que as esculturas deveriam ser todas iguais, estilo soldadinhos de chumbo”, brinca.

É claro que não deu ouvidos e acabou por moldar a pedra numas oficinas em Vila Viçosa. O marido Pedro Félix, também ligado às artes, deu uma ajuda na execução do projecto. Hoje, com 40 anos de idade e mãe de 3 filhos, Teresa Paulino gosta dos grandes formatos. Foi atleta na juventude, praticou natação e chegou a participar em várias provas de mar.

Mas “os observadores” não são os únicos trabalhos de arte pública que tem no Algarve. São talvez o mais consensual. Ainda recentemente, em 2009, fez “Os Músicos do Coreto”, um conjunto de sete esculturas que estão na principal avenida de Loulé.

Têm uns acabamentos “arredondados”, a pedido do autarca, que acabaram por suscitar algumas críticas menos positivas. Por exemplo, um blogger da cidade considerou “que se trata de uma anedota e de um desrespeito pela Música e pelas Filarmónicas” e “que ficará como testemunho da falta de visão dos governantes e da sua incapacidade de produzir objectos socialmente úteis”. Exagero?

A arte pode ser controversa, mas quando as coisas não correm bem, nem sempre a culpa é do artista. Uma das principais fontes de problemas que Teresa Paulino tem experimentado são os sucessivos adiamentos, cortes e mudanças à última da hora.

Um exemplo pragmático - a escultura de homenagem aos combatentes de Faro na Guerra Colonial, inaugurada em Setembro de 2009. “Acho que ficou muito pequena”. Ou melhor, ficou “à medida do orçamento”. “Sim, mas ao menos fizeram-na”, diz. O projecto esteve dois anos “pendurado”. “Conheci os presidentes todos da Liga dos Combatentes”, que ao longo deste tempo iam mudando.

Mas há mais histórias caricatas. Em 2008, “pediram-me para fazer a figura em bronze de um músico para os 150 anos da banda de Paderne”. As dificuldades começaram uns dias antes da apresentação ao público.

“Quando é para colocar as esculturas, as câmaras também não têm meios próprios para o fazer. Perguntam-me sempre se não conheço alguém” que coloque a estatuária. “Ou então, quando têm pessoal, o problema é que demora tudo muito mais tempo”, garante.

“Lá arranjei uns amigos” para trabalharem na logística.

“Veja lá que a inauguração foi em Maio de 2009. A parte da Câmara era apenas colocar uns projectores. Ainda hoje não estão lá…”, brinca.

Teresa Paulino tem a sua pequena oficina na Fonte Santa, concelho de Loulé. Passou pelo ensino e esporadicamente dá oficinas de arte para crianças. Actualmente, vive exclusivamente das encomendas solicitadas por particulares, autarquias e empresas. Isso implica dedicação, esboços, desenhos à escala, maquetas, e várias horas de trabalho prévio.

“No Porto, um centro comercial encomendou um projecto para umas peças”, mas entretanto ficou tudo no papel por falta de verbas. “É uma frustração. E às vezes nem o projecto me querem pagar. Invisto tempo a pensar e a desenvolver uma ideia que depois não é levada a sério”. Como é que se reage? “Vou-me habituando”, brinca. “Mas é um pouco chato”...

Filha de pais algarvios (mãe de Olhão e pai de Faro), a viver em Lisboa, Teresa Paulino fez o ensino secundário na célebre escola artística António Arroio. Depois, tirou um curso de corte industrial de tecidos.

“Desde miúda que faço coisas – bonecas, roupas, malas, costura e crochet que aprendeu com a avó”. É um dos raros casos que decidiu regressar às origens. “Vim para cá porque não gostava de viver em Lisboa”, confessa.

Sempre que pode, apresenta trabalhos em concursos de ideias, um pouco por todo o país. Na «1ª ArteMar do Estoril» em 2009 ganhou o segundo lugar com o «Red Fish», uma escultura em resina e fibra de vidro, com escamas em tecido, construída a partir dos resíduos recolhidos do mar. O ano passado regressou ao evento com uma lata de sardinhas gigante. Venceu o prémio do júri on-line, no valor de 5 mil euros.

Agora tem em espera um novo e radical projecto de arte pública, de escultura em fibra de vidro para a Câmara Municipal de Loulé. “É giro porque destina-se a um edifício antigo.

É uma coisa diferente. São umas figuras, tipo uns corpos humanos que entram numa parede de um lado e saem do outro. Há também um porco, de frente e de costas”. Seriam um ponto de interesse acrescido, pois ficariam onde é montado um dos palcos do festival MED. “É pena que não haja verbas”, lamenta.

Um dia, se tivesse recursos “gostava de fazer peças grandes para espalhar pelo país, no meio do descampado. Pensei nisso porque não existe nada do género”. Algo parecido com os touros gigantes algures ao longo da auto-estrada que atravessa a Andaluzia...

«Os observadores» da rotunda do Aeroporto de Faro, imaginados por Teresa Paulino são um ex-libris do Algarve. Em 2001, com a colaboração do marido Pedro Felix, ganhou os concursos de escultura para a vila de Alcoutim relativos às figuras do ‘contrabandista’, ‘pescador’ e ‘guarda fiscal’. Em 2008, inaugurou duas obras: “Rotunda dos Pescadores” em Quarteira e a “Vendedora do Mercado” em Loulé. Em 2009 seguiram-se“Os Músicos do Coreto” em Loulé, e “O Músico da Banda de Paderne” em Paderne – Albufeira.

Depois destes trabalhos têm surgido várias solicitações de todo o país para a elaboração de projectos de escultura; nomeadamente para Câmara Municipal de Tavira, Condeixa, Faro (Liga dos Combatentes), Loulé, Quarteira e para empresas nas regiões de Aveiro, Grijó (Porto), Lagos (Moinho de Sto Amaro e Escultura para o jardim na praia da Luz); e exposições de escultura e pintura.

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