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Relógio da Torre do Monte do Bicho
Um monumento feito em casa!

No princípio, "era apenas um espaço degradado em frente da porta", recorda Marco Conceição, que não gostava do que via. "E então, como há muitos anos faço arte, e como já sabia fazer muitas coisas em artesanato, pensei em construir um monumento!", conta.
A ideia não tem nada de simples, mas para o então jovem de 21 anos, não foi preciso reflectir muito. Encontrou a inspiração no velho e inutilizado forno, mandado construir pelo seu bisavô, Adelino de Sousa Bicho.
"O raciocínio foi que o forno tem a ver com chamas, que têm a ver com o inferno e a morte", explica. É claro, a controvérsia foi imediata.
"Quando comecei, muita gente não gostou e fui muito criticado, porque estes são temas pesados", admite. "Com tanta coisa bonita que se pode fazer, porquê esses assuntos?", perguntavam-lhe os amigos.
"Bem, eu não escolhi, foi por associação de ideias. E quer se queira, quer não, a religião faz parte da nossa cultura", diz. Além disso, "o desconhecido é muito atractivo e é um estímulo para a imaginação."
Para piorar a incompreensão do artista, entretanto rebentou o mediático caso do serial killer de Torres Vedras conhecido por “Rei Ghob”, que chocou o país pelos seus crimes supostamente cometidos numa casa excêntrica, cheia de santos, gnomos e outras figuras mitológicas. A comparação foi inevitável.
"Pois, mas não existem duas pessoas iguais", desdramatiza Marco Conceição.
Sem se deixar desmoralizar, começou a criar as suas peças. E mais importante, a forma como estas se relacionam entre si.
No fundo, muito do que fez até agora é a reinterpretação de alguns temas bíblicos.
Por exemplo, criou uma alegoria a São Pedro que "está furioso com tudo o que se passa hoje no mundo" por debaixo dele, "enquanto um par de anjos o tentam acalmar."
Estas figuras celestiais revelaram-se bastante problemáticas para o criador. "Só à quarta tentativa é que os anjos ficaram bem", diz.
As esculturas de Marco Conceição medem em média, um metro e alguns centímetros de altura.
São feitas de vários materiais - "rede de galinheiro, pasta de papel e lixo”. Depois é tudo moldado à mão - os vincos dos trajes, as faces – e meticulosamente pintado.
O lado pagão da cultura popular também encontra aqui lugar, por exemplo, na figura de uma bruxa e o seu gato preto. "Ela está inquieta porque sabe que a Inquisição está perto."
Pode parecer tétrico, mas se olharmos aos factos históricos, a inquisição portuguesa foi criada em 1536. Só foi extinta gradualmente ao longo do século XVIII, num longo epílogo que só terminou em 1821!
Aliás, para além da Bíblia, a História é uma fonte quase inesgotável para Marco Conceição, que ainda tem de acabar uns "relevos que contam as consequências da peste negra no Portugal medieval."
Está também a concluir um mosaico romano que mostra a chegada deste povo à Lusitânia.
No terraço evoca-se também a expulsão dos Jesuítas - um evento marcante do nosso século XVIII - que segundo reza a lenda foram obrigados a abandonar o país de barco pelo Marquês de Pombal.
Curiosamente, a escultura do homem que mandou reconstruir a baixa de Lisboa depois do grande terramoto de 1755, sofreu um acidente e está decapitado...
Marco Conceição reconhece que algumas destas coisas relacionadas com a história e a cultura portuguesa são complicadas de explicar ao visitantes estrangeiros, até porque não domina o inglês. Contudo, sabe como se fazer entender.
"Sim, basta dizer algumas palavras-chave. Normalmente, os estrangeiros têm muita cultura e conseguem interpretar o que aqui está. O espanhóis comparam-me com o Gaudi."
Algumas esculturas têm movimento. “É uma espécie de robótica feita em casa. Como eu trabalho numa oficina de automóveis, aproveito muitas vezes os mecanismos”.
É o caso de um José Sócrates que levanta o braço a pedir votos. A seu lado, responde-lhe um “zé povinho” (a célebre figura intemporal imaginada por Rafael Bordalo Pinheiro) com um “manguito”…
Cerca de "70 por cento dos materiais são coisas recicladas". Quando não está a trabalhar, Marco Conceição frequenta as feiras de velharias, sempre à procura de coisas invulgares para colocar no seu monumento.
Aqui ganham nova vida objectos esquecidos como rodados de carroças, travessas do caminho-de-ferro, pedaços de um moinho de água abandonado algures na Serra do Caldeirão e engrenagens de antigas noras algarvias compradas no ferro-velho, ou descobertas em depósitos de entulho.
A cruz dourada no topo da torre do relógio (também uma relíquia adaptada) foi comprada num antiquário. "Penso que é francesa, é uma cruz de caminho. Os franceses tinham muito o hábito de colocarem uma cruz rente às estradas para protegerem as culturas. Tinham essa fé", explica.
O Relógio da Torre do Monte do Bicho fica mesmo no caminho para uma unidade hoteleira com campo de golfe. "Não sei o que é que as pessoas pensam, mas isto desperta muito a curiosidade."
Constantemente param carros à sua porta com pessoas que tentam desvendar o que é a obra - "se é um museu, se é um cortejo para o carnaval, ou se é um presépio", brinca.
A interpretação varia com a época do ano. Mas se o que o monumento é, ainda não está definido, o autor tem muitas ideias para o que poderá vir a ser.
"Posso dizer que isto ainda está no início. Só fiz 20 por cento do projecto total. A segunda fase vai abordar o tema da vida. Vamos ter muita coisa nova. Vamos ter dinossauros, logo no começo da vida. Tenho imaginado os homens das cavernas, a parte pré-histórica. Depois, irá evoluir até à estrada, a nossa vida hoje baseada no automóvel."
Existe já uma antevisão – uma escultura que representa Génesis - Adão e Eva no paraíso. Não é a visão clássica do casal, pois estão acompanhados por um macaco - que é uma metáfora para a ciência e a teoria da evolução das espécies de Darwin.
"Mais tarde, quero fazer uma aldeia típica portuguesa, com as fontes, a igreja, as praças e um castelo", garante.
Questionado sobre as mouras encantadas e o imaginário místico do Algarve, Marco Conceição, para já apenas faz referência à lenda de Floripes - lenda de Olhão.
O jovem gostava que este fosse considerado "um ponto de interesse" no roteiro cultural do Algarve. "Gostava de tirar daqui a minha profissão, porque é isto que eu gosto de fazer."
A rentabilidade poderia vir "por exemplo, de uma loja de produtos regionais e peças de artesanato. Sei fazer de tudo um pouco - desde olaria, cestaria, tapeçaria, colheres de pau, fundos de cadeira - entre outras coisas", diz.
Um sonho que não se prevê fácil, já que nenhuma das entidades oficiais que contactou a apresentar o seu monumento se dignou sequer a responder-lhe…
"Tenho apresentado o projecto à Entidade de Turismo do Algarve, já enviei cartas à Câmara Municipal de Olhão, tenho escrito para a imprensa", sem sucesso.
Refira-se que as calçadas, os mosaicos, os relevos é tudo feito pelo próprio que já nem contabiliza gastos.
"Não, não faço isso, até porque as pessoas dizem-me que gasto muito e que depois isto não me serve para nada. Dispenso esses comentários", diz.
"Isto é uma coisa que exige muita paciência, muita dedicação. Nem o meu pai que é pedreiro a tem. Dá-me uma ajuda, mas é muito pouca", diz.
E a família compreende? "Sim, nunca me colocaram barreiras."
"Estou bastante orgulhoso com o meu trabalho. Hoje em dia, os jovens não estão motivados para a arte. Não há dia nenhum em eu que não trabalhe na obra. As pessoas muitas vezes ficam surpreendidas como é que eu sozinho consigo fazer isto tudo sozinho em tão pouco tempo."
Uma última pergunta - de onde vem tanta motivação? "Pois não sei. Nem eu consigo explicar. Às vezes, perco as forças até ao esgotamento. Até ficar com a mente em branco. Mas no dia seguinte, já recuperei e quero continuar até onde conseguir", garante.
E "quando morrer, deixo aqui uma placa a dizer: proibido deixar ao abandono!"
O Relógio da Torre do Monte do Bicho está a aberto ao público durante os fins-de-semana. Para visitas guiadas os interessados deverão ligar para o 963 675 322 ou enviar um e-mail para o endereço Email







