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Relógio da Torre do Monte do Bicho

Um monumento feito em casa!

Fora dos locais turísticos habituais e das festas de Verão, o Algarve ainda reserva surpresas, algumas bastante atípicas. Na escondida Maragota, entre Olhão e Tavira, um jovem artista autodidacta começou a construir, em 2007, o seu próprio “monumento”, às portas da casa onde vive com a família. Inspirado em lendas tradicionais, ditados populares, superstições, e episódios da história de Portugal, Marco Conceição, 26 anos de idade, está a criar um universo fantástico chamado Relógio da Torre do Monte do Bicho.
Edição 690 (11 Ago 2011), Sem Comentários »

No princípio, "era apenas um espaço degradado em frente da porta", recorda Marco Conceição, que não gostava do que via. "E então, como há muitos anos faço arte, e como já sabia fazer muitas coisas em artesanato, pensei em construir um monumento!", conta.

A ideia não tem nada de simples, mas para o então jovem de 21 anos, não foi preciso reflectir muito. Encontrou a inspiração no velho e inutilizado forno, mandado construir pelo seu bisavô, Adelino de Sousa Bicho.

"O raciocínio foi que o forno tem a ver com chamas, que têm a ver com o inferno e a morte", explica. É claro, a controvérsia foi imediata.

"Quando comecei, muita gente não gostou e fui muito criticado, porque estes são temas pesados", admite. "Com tanta coisa bonita que se pode fazer, porquê esses assuntos?", perguntavam-lhe os amigos.

"Bem, eu não escolhi, foi por associação de ideias. E quer se queira, quer não, a religião faz parte da nossa cultura", diz. Além disso, "o desconhecido é muito atractivo e é um estímulo para a imaginação."

Para piorar a incompreensão do artista, entretanto rebentou o mediático caso do serial killer de Torres Vedras conhecido por “Rei Ghob”, que chocou o país pelos seus crimes supostamente cometidos numa casa excêntrica, cheia de santos, gnomos e outras figuras mitológicas. A comparação foi inevitável.

"Pois, mas não existem duas pessoas iguais", desdramatiza Marco Conceição.

Sem se deixar desmoralizar, começou a criar as suas peças. E mais importante, a forma como estas se relacionam entre si.

No fundo, muito do que fez até agora é a reinterpretação de alguns temas bíblicos.

Por exemplo, criou uma alegoria a São Pedro que "está furioso com tudo o que se passa hoje no mundo" por debaixo dele, "enquanto um par de anjos o tentam acalmar."

Estas figuras celestiais revelaram-se bastante problemáticas para o criador. "Só à quarta tentativa é que os anjos ficaram bem", diz.

As esculturas de Marco Conceição medem em média, um metro e alguns centímetros de altura.

São feitas de vários materiais - "rede de galinheiro, pasta de papel e lixo”. Depois é tudo moldado à mão - os vincos dos trajes, as faces – e meticulosamente pintado.

O lado pagão da cultura popular também encontra aqui lugar, por exemplo, na figura de uma bruxa e o seu gato preto. "Ela está inquieta porque sabe que a Inquisição está perto."

Pode parecer tétrico, mas se olharmos aos factos históricos, a inquisição portuguesa foi criada em 1536. Só foi extinta gradualmente ao longo do século XVIII, num longo epílogo que só terminou em 1821!

Aliás, para além da Bíblia, a História é uma fonte quase inesgotável para Marco Conceição, que ainda tem de acabar uns "relevos que contam as consequências da peste negra no Portugal medieval."

Está também a concluir um mosaico romano que mostra a chegada deste povo à Lusitânia.

No terraço evoca-se também a expulsão dos Jesuítas - um evento marcante do nosso século XVIII - que segundo reza a lenda foram obrigados a abandonar o país de barco pelo Marquês de Pombal.

Curiosamente, a escultura do homem que mandou reconstruir a baixa de Lisboa depois do grande terramoto de 1755, sofreu um acidente e está decapitado...

Marco Conceição reconhece que algumas destas coisas relacionadas com a história e a cultura portuguesa são complicadas de explicar ao visitantes estrangeiros, até porque não domina o inglês. Contudo, sabe como se fazer entender.

"Sim, basta dizer algumas palavras-chave. Normalmente, os estrangeiros têm muita cultura e conseguem interpretar o que aqui está. O espanhóis comparam-me com o Gaudi."

Algumas esculturas têm movimento. “É uma espécie de robótica feita em casa. Como eu trabalho numa oficina de automóveis, aproveito muitas vezes os mecanismos”.

É o caso de um José Sócrates que levanta o braço a pedir votos. A seu lado, responde-lhe um “zé povinho” (a célebre figura intemporal imaginada por Rafael Bordalo Pinheiro) com um “manguito”…

Cerca de "70 por cento dos materiais são coisas recicladas". Quando não está a trabalhar, Marco Conceição frequenta as feiras de velharias, sempre à procura de coisas invulgares para colocar no seu monumento.

Aqui ganham nova vida objectos esquecidos como rodados de carroças, travessas do caminho-de-ferro, pedaços de um moinho de água abandonado algures na Serra do Caldeirão e engrenagens de antigas noras algarvias compradas no ferro-velho, ou descobertas em depósitos de entulho.

A cruz dourada no topo da torre do relógio (também uma relíquia adaptada) foi comprada num antiquário. "Penso que é francesa, é uma cruz de caminho. Os franceses tinham muito o hábito de colocarem uma cruz rente às estradas para protegerem as culturas. Tinham essa fé", explica.

O Relógio da Torre do Monte do Bicho fica mesmo no caminho para uma unidade hoteleira com campo de golfe. "Não sei o que é que as pessoas pensam, mas isto desperta muito a curiosidade."

Constantemente param carros à sua porta com pessoas que tentam desvendar o que é a obra - "se é um museu, se é um cortejo para o carnaval, ou se é um presépio", brinca.

A interpretação varia com a época do ano. Mas se o que o monumento é, ainda não está definido, o autor tem muitas ideias para o que poderá vir a ser.

"Posso dizer que isto ainda está no início. Só fiz 20 por cento do projecto total. A segunda fase vai abordar o tema da vida. Vamos ter muita coisa nova. Vamos ter dinossauros, logo no começo da vida. Tenho imaginado os homens das cavernas, a parte pré-histórica. Depois, irá evoluir até à estrada, a nossa vida hoje baseada no automóvel."

Existe já uma antevisão – uma escultura que representa Génesis - Adão e Eva no paraíso. Não é a visão clássica do casal, pois estão acompanhados por um macaco - que é uma metáfora para a ciência e a teoria da evolução das espécies de Darwin.

"Mais tarde, quero fazer uma aldeia típica portuguesa, com as fontes, a igreja, as praças e um castelo", garante.

Questionado sobre as mouras encantadas e o imaginário místico do Algarve, Marco Conceição, para já apenas faz referência à lenda de Floripes - lenda de Olhão.

O jovem gostava que este fosse considerado "um ponto de interesse" no roteiro cultural do Algarve. "Gostava de tirar daqui a minha profissão, porque é isto que eu gosto de fazer."

A rentabilidade poderia vir "por exemplo, de uma loja de produtos regionais e peças de artesanato. Sei fazer de tudo um pouco - desde olaria, cestaria, tapeçaria, colheres de pau, fundos de cadeira - entre outras coisas", diz.

Um sonho que não se prevê fácil, já que nenhuma das entidades oficiais que contactou a apresentar o seu monumento se dignou sequer a responder-lhe…

"Tenho apresentado o projecto à Entidade de Turismo do Algarve, já enviei cartas à Câmara Municipal de Olhão, tenho escrito para a imprensa", sem sucesso.

Refira-se que as calçadas, os mosaicos, os relevos é tudo feito pelo próprio que já nem contabiliza gastos.

"Não, não faço isso, até porque as pessoas dizem-me que gasto muito e que depois isto não me serve para nada. Dispenso esses comentários", diz.

"Isto é uma coisa que exige muita paciência, muita dedicação. Nem o meu pai que é pedreiro a tem. Dá-me uma ajuda, mas é muito pouca", diz.

E a família compreende? "Sim, nunca me colocaram barreiras."

"Estou bastante orgulhoso com o meu trabalho. Hoje em dia, os jovens não estão motivados para a arte. Não há dia nenhum em eu que não trabalhe na obra. As pessoas muitas vezes ficam surpreendidas como é que eu sozinho consigo fazer isto tudo sozinho em tão pouco tempo."

Uma última pergunta - de onde vem tanta motivação? "Pois não sei. Nem eu consigo explicar. Às vezes, perco as forças até ao esgotamento. Até ficar com a mente em branco. Mas no dia seguinte, já recuperei e quero continuar até onde conseguir", garante.

E "quando morrer, deixo aqui uma placa a dizer: proibido deixar ao abandono!"

O Relógio da Torre do Monte do Bicho está a aberto ao público durante os fins-de-semana. Para visitas guiadas os interessados deverão ligar para o 963 675 322 ou enviar um e-mail para o endereço Email

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