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Charles Frew

Fora de estrada pelo aquecimento global

Conduziu 37 mil quilómetros passando por 17 países em 361 dias. Durante a sua travessia através da Ásia e da Europa foi varrido por uma avalanche, sacudido por ventos ciclónicos, ficou sem combustível no meio do Deserto de Gobi (a norte da República Popular da China e sul da Mongólia), e foi mandado encostar 25 vezes pela polícia russa. Mas durante toda a experiência, houve sempre uma questão-chave que o britânico Charles Frew perguntou a todos com quem se cruzou: o aquecimento global afectou a sua vida? Ouvimos algumas das respostas que recebeu, no último domingo, quando este especialista em ambientes marinhos de 40 anos de idade, chegou à meta da sua expedição, no Cabo de São Vicente, em Vila do Bispo.
Natasha Donn, Edição 678 (19 Mai 2011), Sem Comentários »

“Uma das respostas mais curiosas que me deram, veio de um pastor de gado da Mongólia, que me disse que já não há tantos arco-íris como havia antigamente”, conta Charles Frew, com um sorriso. “E também houve um chinês que depositava todas as culpas no programa do vaivém espacial da Nasa!”

Mas de tudo o que ouviu, perguntámos a Charles Frew se aprendeu alguma coisa com as centenas de respostas e opinões recolhidas?

A resposta foi imediata - “aprendi que há bastantes mais assuntos urgentes para resolver do que aquilo com que conseguimos lidar.”

“E essa é uma das razões pelas quais chamei à minha expedição «On the Wrong Side» (no lado errado). Eu considero-me um céptico em relação a toda a questão do aquecimento global, e muito honestamente, nada do que aprendi nesta viagem mudou isso.”

“O que eu descobri, efectivamente, é que estamos num mundo de desperdício – e que nós podemos e devemos fazer alguma coisa sobre isso. Em todos os lugares onde fui, vi lixo, plástico e desperdício que são a prova de como estamos a destruir o planeta.”

“Mas pessoalmente, tenho o sentimento que as alterações climáticas são simplesmente um fenómeno cíclico da mãe natureza. Não é algo que possamos alterar ou evitar.”

Esta última intrépida viagem, muitas vezes através de terreno hostil – “fui onde nenhum homem foi num carro” –, foi acompanhada de pequenas aventuras um pouco por todo o mundo.

De acordo com o sítio oficial da expedição «On the Wrong Side», Charles Frew “enganou bandidos na Guatemala, apanhou disfarçadamente boleia em lanchas voadoras de traficantes de droga nas Honduras, escapou de vulcões em actividade na Indonésia e subiu ao pico mais alto do Vietname com a tribo Hmong”. Para além da sua preocupação ambiental, ele é apresentado como um “piloto de corridas e aventureiro em part-time, e vencedor do troféu “Amazing Land Rover Adventure Explorer”.

Mas ele é mais que um “destemido” explorador num 4x4. As suas últimas viagens ensinaram-lhe a “nunca abrir um portão fechado” (um lapso nesta etiqueta teve como consequência ter sido varrido pelos pés por uma avalanche), e talvez mais importante ainda, mostrou-lhe o quão fascinante as pessoas podem ser ao redor do mundo.

“Antes de partir, fui avisado que poderia ter grandes problemas na Rússia. Que os russos me iriam roubar e bater-me até eu ficar feito em puré. Enfim, disseram-me esse tipo de coisas. Mas a realidade é que nunca conheci um povo tão simpático. E em certa medida, também aprendi que é possível ir a qualquer lado num carro…”

Ou pelo menos, até o carro avariar – e foram alguns os percalços que o fiel Toyota Hilux de Charles Frew sofreu, apesar de protagonizar algumas histórias espectaculares.

Por exemplo, houve uma vez que o radiador começou a ter fugas, na Mongólia – um dos países mais duros de todo o itinerário, devido à falta geral de serviços básicos e da vastidão das paisagens abertas.

“Todos os dias na Mongólia são um acontecimento, e neste dia particular, não tive outra opção, senão remover o radiador, pô-lo às minhas costas e caminhar 40 quilómetros até ao mecânico mais próximo…”

“A Mongólia não é como outro sítio qualquer… os mecânicos concertam tudo com pedaços de arame e tubo. E o problema seguinte é que eu tinha andando tanto que me esqueci onde é que tinha deixado o carro!”

Oito horas mais tarde, finalmente encontrou-o. “Foi um dia típico naquele país. Mas a parte mais difícil de toda a jornada foi acordar todas as manhãs e planear para onde ir a seguir.”

Frew perdeu-se “constantemente”, mas tinha uma rota bem planeada para seguir. O plano envolvia começar em Hong Kong (cidade onde trabalha como consultor marinho), no icónico farol do cabo d’Aguilar, atravessar a China, e depois a Mongólia, a Sibéria e a Rússia, conduzir para norte na Noruega até ao farol mais a norte da Europa, em Slettnes.

Depois, a partir daí seguir para sul, para atravessar a Finlândia, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Mónaco e Suíça, antes de chegar a Espanha e rumar até aos faróis do Cabo da Roca e finalmente, do Cabo de São Vicente.

Angariou fundos para três instituições de solidariedade (duas das quais para crianças) e entregou dinheiro a orfanatos na Rússia e na Mongólia. A terceira causa - «The Shark Trust» - está a beneficiar da publicidade que ele está a promover, sensibilizando o público para o iminente perigo de extinção.

“Trabalho muito de perto com um grupo de conservação da natureza em Hong Kong (o centro mundial de comércio de barbatanas de tubarão) e da forma como as coisas estão a correr, certas espécies de tubarões enfrentam o risco de extinção até 2020, devido à falta de fiscalização sobre esta pesca.”

“Espanha é um dos piores culpados. Não lhes pedimos que erradiquem a pesca do tubarão, mas deve ser controlada e feita de forma mais humana. Neste momento, as barbatanas são simplesmente arrancadas e o resto do tubarão é atirado de volta ao mar para morrer. É uma barbárie.”

Enquanto o sol brindava o comité de recepção a Charles Frew – na maioria formado por amigos de longa data, houve tempo para o explorador todo-o-terreno relaxar pela primeira vez em quase um ano e ponderar o seu próximo passo. Curiosamente, Frew passou bastantes anos férias no Algarve até se formar e os seus pais ainda vivem cá.

E qual vai ser o próximo passo? “Um livro!”, responde. “Está tudo aqui”, diz, apontando para a cabeça. “Vai ser uma edição de autor, dentro de alguns meses. E estou a pensar numa viagem pela América do Sul…”

Talvez no interesse da sua já considerável pegada de carbono, considere fazer a próxima expedição numa bicicleta, ou num lama do Peru?

Até lá, Charles Frew vai dar umas palestras sobre a sua viagem na Associação Arqueológica do Algarve, na terça-feira, dia 7 de Junho. A primeira tem lugar às 14h30 no Museu do Trajo de São Brás de Alportel. A segunda está marcada para as 19h30 em Lagoa. Para mais informações, se estiver interessado em participar, contacte o 935587382.

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