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Dia do Trabalhador em Faro

Protesto de Maio nos dias do FMI

Não foi uma multidão, mas ainda assim foram centenas de pessoas que se juntaram no Jardim da Alameda, em Faro para celebrar o Dia do Trabalhador, no Domingo, 1 de Maio. Este ano, a manifestação surge num cenário de grave e prolongada crise económica que persiste sem fim à vista na região e no país. Entre slogans e palavras de ordem, falámos com alguns dos protagonistas de um dia cada vez menos popular, porque, até as convicções estão em crise…
Edição 676 ( 5 Mai 2011), Sem Comentários »

O vinho já não vem nos garrafões de vidro de antigamente, mas sim nas modernas embalagens “bag-in-box” compradas provavelmente nos hipermercados que mais uma vez não reconhecem o dia do trabalhador. Só a sardinha continua a mesma, embora este ano pareça mais magra e com mais espinhas.

Ninguém sabe como será para o ano. Sabe-se sim que o país está à deriva. A “troika” formada Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE) é maldita na boca do povo e nos autocolantes ao peito.

“Foi um primeiro de Maio de preocupação pela situação que se vive na região e no país. O Algarve é uma região onde o desemprego tem crescido de forma avassaladora. É uma região de salários baixos. Ultimamente, temos assistido a algumas situações vergonhosas, com patrões a tentarem reduzir salários, a tentarem transformar contratos de trabalho em vínculos precários. Nós temos a ideia muito clara que a pobreza e a exclusão social aumentaram de forma brutal ao longo destes últimos dois anos na região”, diz António Goulart, dirigente da União dos Sindicatos do Algarve.

“Hoje há centenas de famílias algarvias que passam grandes dificuldades. Alguns, nem têm meios de subsistência porque há muitos trabalhadores que perderam o subsídio de desemprego. Não é preciso números. Basta olhar a realidade à nossa volta. Basta ver o número de refeitórios sociais que as autarquias tiveram que criar e o crescimento enorme da afluência. Basta ver o trabalho das instituições no terreno que estão a procurar minorar essas situações, para percebermos que a região vive tempos dramáticos e que há gente que está a passar muito mal, numa vida angustiada e sem perspectivas de futuro”, diagnostica.

Ainda assim, Pedro Afonso, jovem afecto ao Bloco de Esquerda, colaborador numa livraria de Faro e pai de duas crianças, nota que de ano para ano, a festa vai perdendo pessoas.

“Quem não concorda com o que está a ser feito em Portugal e na Europa deveria estar na rua com toda a força”, apela. Se não há mais é porque, em sua opinião, “há um descrédito da parte das pessoas nas organizações políticas. Acho também que o discurso da inevitabilidade da degradação social que passa nos media, faz com que as pessoas desistam. O chamado centrão (PS e PSD) estão a ganhar essa luta. As pessoas não percebem que isto é uma escolha política de quem nos tem governado”, diz.

Um ponto de vista também partilhado por António Goulart. “Os portugueses são bombardeados todos os dias por notícias de sacrifícios. É verdade que o FMI tem uma política de cortes. A intervenção é sempre a mesma em qualquer parte do mundo. Mas há que ter a noção que todas essas notícias que vão surgindo têm um objectivo muito concreto, que é condicionar psicologicamente os portugueses para virem a aceitar um mal menor, sem resignação e sem protesto”, diz.

Entre as centenas de presentes, encontra-se Carina Infante do Carmo. É professora de literatura na Universidade do Algarve e afecta à CDU. “Há povo. A consciência dele em relação à sua situação e a capacidade de reacção é que é diversa. Mas o que há mais é povo e povo com problemas, povo a ganhar mal e povo a viver situações complicadas. Isso é muito vísivel”, considera.

No entanto, quem tem “salários baixos e uma precariedade muito grande, essas pessoas, inevitavelmente, a sua capacidade de reacção é menor. Quando se está acabrunhado por limitações financeiras, reivindicar direitos é mais complicado”, relativamente à adesão popular.

E considera que os novos movimento cívicos que tem vindo a surgir («Precários Inflexíveis», “Geração à rasca», «Mayday», etc.) são “um sinal que as pessoas não estão amorfas e que consideram que há coisas que são dignas de defender a todo o custo”.

Em relação ao futuro próximo, a docente manifesta a sua inquietude. “Estou preocupada porque a pressão é muita no sentido inclusive quase de se fazer um golpe de estado institucional sob a desculpa do FMI. Pretendem-se fazer coisas muito graves que subvertem direitos arduamente conquistados ao longo de décadas”, diz.

Receios partilhados também por António Goulart. “As soluções para Portugal não passavam pela entrada do FMI, União Europeia e Banco Central Europeu. A solução para o país, passaria em primeiro lugar, por se fazer um diagnóstico rigoroso das causas da crise que temos. Mas também, e ao mesmo tempo, encontrar os responsáveis”, considera.

Para o sindicalista, “as razões de fundo da actual crise têm a ver com as políticas desenvolvidas ao longo dos últimos 20/30 anos, em que se foi destruindo completamente o sector produtivo nacional. Foram dados apoios de milhões e milhões a actividades de lucro fácil, como a imobiliária”. “Os responsáveis são os governos que ao longo deste tempo têm governado sempre com a mesma orientação, que é o incentivo brutal, às vezes descarado e vergonhoso ao sector financeiro de grande especulação”.

Convencido que “só através da luta é que conseguimos resolver e ultrapassar os problemas que o país tem”, Goulart anunciou no seu discurso as próximas acções.

“Estamos muito firmemente empenhados em contestar quaisquer medidas que possam vir a agravar a situação dos portugueses”. O próximo passo na luta está marcado para dia 19 de Maio, com duas grandes manifestações em Lisboa e no Porto "para contestar aquilo que se está a congeminar entre aquela famosa troika”

Finalmente, António Goulart destaca a importância das próximas legislativas. “São eleições importantes se os portugueses se empenharem em que do dia 5 de Julho não venha a sair mais do mesmo daquilo que tem sido até hoje. É importante que as pessoas tenham a consciência clara que é importante o seu voto para evitar o caminho da ruína e da devastação social que se está a produzir”…

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