| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um. |
Algarve Artists Network
Artistas Unidos na Ria Formosa

A ideia é proporcionar aos visitantes “uma interpretação muito viva e poética deste sítio”, explica-nos a artista alemã Nada Mandelbaum, que tem estado na linha da frente da organização. “Queremos que o público deixe voar a sua imaginação e fique visualmente envolvido” na arte e na paisagem.
Um bom exemplo é a máquina à vela que a artista Milita vai criar. “Sendo a ria uma zona ecologicamente protegida, quero apresentar algo que faz lembrar a energia alternativa, tal como os nossos antepassados o faziam”, explica. “A máquina transforma o ar em energia, e a energia em água, e a água em vida e a vida em poesia”, brinca. Nada Mandelbaum vai expor escultura criativa - bailarinas que dançam ao sabor do vento e que representam as quatro estações do ano.
Aidan Bremner, um artista escocês apaixonado por Lagos, onde vive e trabalha desde 1994, andou pelas praias a recolher lascas de madeira. Ou melhor, pedaços das antigas embarcações de pesca tradicional. “A minha ideia é usar este material para criar uma ave imaginária”, diz.
Vai criar uma escultura que remete para o trabalho do centro de recuperação de aves selvagens (RIAS), não muito longe dali. “Lembro-me de um ano em que trataram vários abutres que aterraram desorientados no Algarve. Acho que hoje, cada vez mais pessoas também se sentem assim, desorientadas”, ironiza.
“Talvez os muitos pescadores também se sintam um pouco perdidos sem os seus barcos de madeira que foram abatidos devido às novas leis europeias e substituídos pela fibra de vidro”, diz.
Peter de Jong também está interessado na problemática do desaparecimento das artes tradicionais. “Vou fazer uma escultura que junta 40 alcatruzes de barro – as armadilhas utilizadas para a pesca do polvo”, um design que hoje foi substituído pelo plástico.
Curiosamente é este mesmo material que vai representar a união destes artistas, numa instalação colectiva a erguer no passadiço de madeira, contíguo ao moinho de maré.
Sílvia Cavelti, a autora da ideia, explica “que no nosso tempo, é praticamente impossível viver sem plástico. Não é bom, mas faz parte da vida moderna”. Aliás, tanto assim é que segundo Peter de Jong, os artistas vão fazer uma escultura apenas com o lixo recolhido no parque antes da inauguração da mostra.
Mas voltando à ideia. “Vamos usar um mínimo de 350 garrafões de 5 litros de água colorida, cheios de forma gradual, que no conjunto fazem lembrar os movimentos das marés. Cada cor representa um de nós, e serão separados por um garrafão de água clara onde será colocado o nome, um objecto, ou uma mensagem pessoal de cada artista”, revela Sílvia Cavelti.
Os trabalhos serão expostos ao ar livre e também dentro do edifício do Centro de Educação Ambiental de Marim, reservado sobretudo à pintura. Trabalhos de artistas como a alemã Seegrun Lübke que “quer captar a luz da maré baixa ao meio-dia” ou o “lirismo abstracto” do britânico John Lamonby que curiosamente viveu a 2 milhas dali durante 4 anos.
Um dos objectivos desta mostra é dinamizar este espaço. É também de sublinhar que a iniciativa não tem quaisquer apoios institucionais. Todos os custos são suportados pelos artistas. “Há apenas um restaurante de Almancil que nos vai dar alguns pratos para a inauguração. Gostaríamos muito que outros aqui à volta nos dessem algum apoio”, apela Nada Mandelbaum.
A exposição vai ficar patente até meados de Junho de 2011. Outra novidade é que a «Algarve Artists Network» vai, a partir do próximo mês, gerir a galeria «Studio 21» em Loulé. “É uma experiência. Vamos abrir três dias por semana para ver como corre”, revelou Peter de Jong.
Cultura e artistas de costas voltadas?
“A cultura faz-se com as pessoas e pelas pessoas. Esta iniciativa nascida de um grupo de 24 artistas faz a diferença numa região em que temos muito a tendência de definir como turística, e esquecemo-nos que temos comunidades com uma panóplia de gente que contribui para que seja muito mais do que isso”, diz Dália Paulo, Directora Regional da Cultura do Algarve, que apoia o evento da «Algarve Artists Network».
Contudo, questionada sobre se a Direcção Regional de Cultura do Algarve conhece e sabe onde está este capital humano, a resposta é negativa. “Neste momento, ainda não temos nenhum directório”, lamenta Dália Paulo.
“Até agora, o que existe é o levantamento do que há em termos de equipamentos” e não de recursos humanos. Há também registos de algumas associações, mas não de pessoas individuais ou grupos informais.
Contudo, segundo Dália Paulo, “está a ser elaborado um projecto chamado Carta Cultural de Portugal”, que no futuro, vai reunir esta informação a nível nacional.
“Vai ser uma plataforma de contactos e de conhecimentos, e também uma radiografia e um mapeamento do que existe no Algarve, a nível de criadores, produtores e programadores”, futuramente útil para que “um público em geral ou especializado possa ter essa informação” disponível e centralizada on-line.
No Algarve, desde Janeiro deste ano que está a ser discutido e preparado o método de trabalho a utilizar na elaboração da Carta Cultural de Portugal, que vai aproveitar algum trabalho já feito pelas autarquias. Existe muito pouco, à excepção de Aljezur e Lagos, que organizam pontualmente mostras colectivas dos seus artistas locais.
E que é preciso para estar presente nesta Carta? “A ideia é que as pessoas possam elas próprias inscrever-se. O critério é terem a sua actividade profissional ou amadora” ligada à cultura. “Podem até ser pessoas que estejam a iniciar a actividade. O objectivo é incluir toda a gente, em vários níveis”, revela Dália Paulo. “O que nos interessa nessa plataforma é perceber a cada ano, quantos novos artistas aparecem a trabalhar na região”, de modo a conhecer (e corrigir) as assimetrias. O prazo de conclusão é 2013.








