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Feldspato

Guerra ambiental em Monchique

Monchique está a juntar esforços para uma batalha ambiental com o objectivo de salvar o último pedaço intacto de natureza – uma área protegida rica em fauna e flora, que é também o habitat natural da ameaçada Águia de Bonelli. A população local, o autarca e grupos ambientais estão unidos para bloquear os planos para duas explorações de feldspato. É um jogo complicado, segundo explica o líder do grupo de luta formado pelos residentes na área: “O dinheiro é que conta. Se o governo diz que é o interesse nacional que conta, haverá pouco que possamos fazer”. Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique concorda – “o problema é que em Portugal, o Estado pode passar por cima dos autarcas e das autarquias”. Mas não sem luta!
Natasha Donn, Edição 667 ( 2 Mar 2011), Sem Comentários »
João Cosme

Esta é a segunda vez em 15 anos que Monchique tem que tomar uma posição forte para resistir aos planos de prospecção mineral no sudoeste da Picota. É uma área de 1612 metros quadrados, entre a Fornalha, Corte Grande, Alto de Baixo, e outra zona contígua de 1000 metros quadrados nas Carapitotas).

Desta vez, as empresas interessadas são a «Felmica – Minerais Industriais, S.A» e a «Sifucel Sílicas, S.A.».

A primeira faz parte do grupo Mota – descrito como “um fornecedor de matéria-prima para a cerâmica”. É um grupo que tem vindo a concentrar-se no aumento das suas exportações desde 2003, e que já investiu mais de 20 milhões de euros na «Felmica», que actualmente extrai centenas de milhares de toneladas de feldspato de várias pedreiras espalhadas por Portugal. A segunda empresa tem sede em Rio Maior e faz parte do grupo Parapedra, que explora e comercializa pedreiras e o negócio da extracção de areias.

De acordo com fontes que contactámos na Direcção-Geral de Energia e Geologia, a empresa «Felmica» esperou pacientemente quase oito anos até ao presente para apresentar uma nova candidatura aos direitos de exploração mineral na Picota.

“Eles sabiam que o antigo autarca (Carlos Tuta) era completamente contra o plano, e só estavam à espera que o executivo mudasse”, confirmou-nos o Dr. António Correia Gomes.

Talvez o que não estivessem à espera é que o novo autarca, Rui André, fosse ainda mais convictamente contra o plano que o seu antecessor.

“Seria completamente errado mexer naquela área que faz parte da REN (Reserva Ecológica Nacional) e ainda por cima é protegida pela Rede Natura 2000. Sou completamente contra, e aliás, já enviei as minhas objecções à Direcção-Geral de Energia e Geologia”, disse-nos Rui André em entrevista.

O autarca acrescentou que desde que as notícias da prospecção começaram a espalhar-se, tem vindo a ser procurado por “várias outras empresas” para saberem qual a sua posição. Tal como aconteceu no passado, o negócio tem mais interessados. Em 1996, por exemplo, houve contactos da Alemanha e dos Estados Unidos da América.

“Obviamente que tenho de pensar no desenvolvimento deste concelho”, admitiu Rui André. “Sou conhecido por ser um ambientalista, mas também tenho que gerir o município de forma a que possamos progredir”.

“Ou seja, o que quer dizer é que não sou completamente contra que no futuro haja uma exploração, mas noutro ponto do concelho”, admitiu. “Monchique é extremamente rico em minerais e até metais”. De facto, recentemente uma subsidiária da empresa norueguesa «Wega Mining Group» candidatou-se a uma licença para a prospecção de ouro, prata, cobre, chumbo e zinco à volta de Monchique.

O autarca apoia os seus residentes empenhados em lutar contra o projecto, mas estes ainda estão muito preocupados com o que possa acontecer no futuro. Veteranos dos protestos de 1996 lembram-se bem de um parecer oficial que considerava a exploração de feldspato uma questão de interesse nacional.

É algo que ainda pode ter eco hoje. Correia Gomes admitiu ao nosso jornal que “às vezes, até os custos ambientais têm que ser equacionados quando se trata de prioridades nacionais”.

Mas acrescentou: “É de facto uma questão de diálogo. Com tantas queixas que já recebemos (e nenhuma das prospecções foi publicada em Diário da República), o Estado não pode simplesmente emitir as licenças. As empresas ainda têm muito trabalho para fazer primeiro”.

Correia Gomes explicou que de acordo com a lei, os proprietários de terrenos podem recusar o acesso às empresas de prospecção, e por conseguinte, pode tudo acabar no tribunal.

“Este tipo de empresas tentam sempre não ir a tribunal, acredite”, disse-nos.

“Se uma outra área, de menor importância ambiental, pudesse ser sugerida, seria muito bom”, concluiu.

Contudo, poderá não ser assim tão simples. O geólogo Vasco Valadares, 33 anos, está neste momento a completar a sua tese de doutoramento em Lisboa, no seguimento do seu mestrado «O complexo alcalino de Monchique».

Este investigador cartografou a área, “em todos os lugares mais escondidos, em busca de todas as possibilidades de prospecção”. Apesar do feldspato poder ser encontrado em 60 por cento da crosta terrestre, não há muitas mais alternativas para a sua exploração em Monchique.

Na verdade, a área sudoeste da Picota é um dos melhores locais (ver mapa). E mais. O feldspato existente nessa zona pode ser classificado como “único” (ou seja, de boa qualidade invulgar).

Rui André mencionou que na passagem talvez “a Norte da Fóia, poderia ser um sítio para uma pedreira”, mas aí não existem quase quaisquer filões de feldspato, de acordo com o levantamento de Vasco Valadares.

Entretanto, a luta dos residentes continua – estão unidos num grupo que se diz 100 por cento organizado nas actividades de protesto.

O líder é Ewen Hentall, que tem experiência em estar “na oposição” de batalhas como esta. Recentemente, reformou-se de um dos maiores grupos do mundo no fabrico de materiais de construção.

“As empresas que querem começar a prospecção ou mesmo a exploração mineira aqui, certamente não querem ter que enfrentar um grupo organizado. Dificulta-lhes bastante a vida”, garantiu-nos. “É por isso que temos que estar unidos, bem informados e sempre a espalhar a nossa mensagem”.

O grupo já arregaçou as mangas e criou uma petição on-line com cerca de 1300 assinaturas (número que cresce todos os dias). O documento é dirigido à Direcção-Geral de Energia e Geologia para que vete os novos projectos de prospecção mineral. Além disso, estão a enviar comunicados à imprensa e a distribuir panfletos. A próxima acção em defesa desta causa tem lugar na «Feira dos Enchidos» de Monchique.

Ewen Hentall explica: “nenhum de nós quer uma pedreira ou uma mina, seja de que tipo for, nesta área porque isso envolve todo o tipo de perigos. Uma das nossas principais preocupações tem a ver com a interrupção e contaminação dos aquíferos subterrâneos, dos quais depende a água que bebemos. Essa é a principal questão ambiental. Mas claro que depois há todo o impacto que causaria na natureza”.

Annette Matthias, a secretária do grupo, lutou contra os planos de prospecção em 1996. “A acontecer, nada seria mais terrível para esta bela parte de Monchique. Destruiria toda a beleza e riqueza natural que temos aqui. Destruiria as pequenas iniciativas de ecoturismo que algumas pessoas iniciaram. Não podemos deixar que aconteça!”

Se quiser mais informações, leia a apresentação sobre os Impactos Ambientais da exploração de recursos geológicos na serra de Monchique da autoria do geógrafo Eduardo Duarte (Município de Monchique) exibida na Sessão Pública de Esclarecimento de 23 de Junho de 2011.

______

Moradores unidos contra a exploração de feldspato

Cada vez mais moradores estão contra a eventual exploração de feldspato na serra de Monchique – que está a gerar um movimento organizado de luta e protesto. No passado dia 30 de Junho de 2011, os cidadãos Cristina Fernandes e Ewen Hentall, entregaram na Assembleia Municipal de Monchique o seguinte documento:

1) Agradecer em nome da Nossa Terra, à Assembleia Municipal, a organização da sessão de esclarecimento sobre a possível prospecção de Feldspato em Monchique.

2) Felmica, Sifucel ou qualquer outra não são a solução. O engenheiro Carlos Caxaria falou em aumentar a exportação para aumentar o desenvolvimento económico, aumentando a riqueza e ainda em contrapartidas para a edilidade no caso da aprovação da exploração.

3) Temos que aumentar a exportação de Monchique sim, mas como um todo pleno de identidade natural, cultural, etnográfica, geológica, etc e não aos pedaços como nos aconselharam!

4) O desenvolvimento económico nesta crise sócio-económica generalizada passa grandemente pelo Turismo, são os especialistas que o afirmam, não invento. O Turismo de Natureza, Cultural e de Saúde, isto sim é a chave para o desenvolvimento sustentável e aumento da riqueza em Monchique e para Monchique!

5) As contrapartidas das empresas para a edilidade não passam de presentes envenenados de quem decide em gabinetes longínquos, baseados em estatísticas totalmente desfasadas da realidade local. Destruir o bom-nome de Monchique como referência mundial no Turismo de natureza, não os incomoda nada desde que os seus bolsos se encham à custa disso.

6) Ninguém quer passar férias num ambiente industrial, no meio do pó, do ruído e da destruição. Os turistas não sobem a Serra para visitar pedreiras! Se elas se instalarem cá, aí sim, todos os empregos que já existem estarão em risco e o despovoamento da serra será uma realidade.

7) São as pessoas locais e todas as que não sendo naturais da serra, optaram por viver aqui, trabalhar e pagar os seus impostos, que são a força de desenvolvimento e anti-desertificação da serra.

8) Monchique tem que estar acima de cores políticas! Câmara, Assembleia, Juntas de Freguesia e Munícipes, temos que nos unir e trabalhar em conjunto na criação de programas locais de formação e aperfeiçoamento no atendimento de qualidade ao turista, na criação, desenvolvimento e sistemas de cooperação empresarial, unirmo-nos para exportarmos a nossa diversificada oferta.

9) Acreditamos que deverá ser o poder local a encomendar um estudo de impacto sócio-económico das pedreiras para nos servir de apoio a possíveis futuras pretensões.

Também o PDM deve ser alterado de modo a que mais pedreiras para além da que já existe, estejam fora de questão! Não podemos esquecer que a água nasce no lado não turístico da serra e que é um bem cada vez mais precioso – dentro de 100 anos e devido às alterações climáticas, Monchique será o oásis num Algarve desértico, isto na geração dos nossos netos! Não podemos hipotecar o seu futuro!

10) Como referência refiro o concelho de Santana, na Madeira, que sabendo manter-se firme na defesa do seu Património natural e cultural e baseando neles a seu desenvolvimento sócio-económico, esta semana foi classificado como Reserva da Biosfera pela UNESCO.

11) Destruir o maciço alcalino de Monchique é igual à extinção de qualquer espécie animal ou vegetal.

12) É sobre isto que todos nos, Assembleia Municipal, Câmara e Munícipes devemos reflectir - SIM ao desenvolvimento que não compromete as mais valias do concelho. NÃO às pedreiras, NÃO à destruição disfarçada de desenvolvimento!

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