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Antonio Lambe
Plantando boas sementes

Um minúsculo rebento que cresce num tubo de mica… uma pequena mas definitivamente sobrevivente “Rainha dos Andes” ou Puya Raimondi. Todas as outras sementes que até agora o ambientalista tem vindo a tentar germinar sucumbiram aos fungos antes de atingirem os três milímetros de altura... mas esta já chegou aos dois centímetros de altura, e um verde resplandecente abriu caminho para uma nova geração – e, alguns dias apenas depois, 40 outras “plúmulas” – parte de onde se forma a haste do vegetal - , emergiram de outro tabuleiro de sementes.
O passo seguinte será a hidroponia, e, se tudo correr bem, o oásis tropical das Três Fontes, no Algarve, poderá vir a transformar-se no próximo novo habitat destas espécies da lista vermelha (leia-se: em perigo), que, em idade adulta, podem atingir alturas de até 12 metros.
Esta planta notável que dá sementes uma vez em cada 80 anos e produz uma espiga terminal única e espectacular, composta por mais de 3.000 flores e pelo menos seis milhões de sementes, deve quase totalmente o seu estatuto de espécie protegida a Lambe, que ficou “viciado” quando avistou uma pela primeira vez e esteve dois anos a fazer pressão sobre as pessoas e escreveu quase 2.000 cartas em campanha pela inclusão desta planta na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
O que o fascina é que a Puya Raimondi cresce em condições inóspitas nas montanhas dos Andes, a alturas de 3.000 a 5.000 metros, em ambientes que de outro modo apenas hospedariam vegetação rasteira.
“Está muito à frente de qualquer outra coisa da área. O facto de algo tão grande poder sobreviver em tais condições, onde o ar é escasso e é difícil respirar, é, para mim, uma das maravilhas da natureza”
É uma tarefa árdua convencer as outras pessoas do significado que esta planta tem, mas Lambe está determinado em consegui-lo.
“Agora, espero usar a análise de imagens de satélite para poder fazer a localização exacta destas plantas e um inventário do seu habitat para pelo menos ter uma ideia de quantas existem e onde”.
“Há muita hostilidade local para com as Puyas”, explica. “As pessoas dizem que matam os animais” (por causa das suas folhas com espinhos que são conhecidas por se cravarem nas ovelhas). “Portanto, vocês podem encontrá-las cobertas de pedregulhos e até por pedras que lhes foram atiradas. Podem ter-lhes arrancado a raíz ou queimado. É trágico, pois são um verdadeiro tesouro da natureza. Podiam ser promovidas como atracção turística! Nós temos mesmo muito que descobrir sobre elas”.
“Eu quero deixar um legado – quero que algo fique quando eu me for, e se por o Tony Lambe ter tido esse cuidado existirem Puyas, para mim então isso será mais que suficiente!
Mas enquanto as suas ainda minúsculas Puyas lutam contra as adversidades, em recipientes estrategicamente colocados, Lambe não fica parado. Em simultâneo, está a promover projectos de reflorestação tanto aqui como no Perú; ele é uma autoridade em termos de aterros sanitários (tendo lutado activamente pela existência de altos padrões nos aterros locais) e a sua ajuda é requisitada regularmente por pessoas de todo o país que enfrentam o panorama de terem um aterro sanitário por perto. Também se tornou especialista não oficial no bicho da palmeira, o escaravelho que tem vindo a destruir as palmeiras da região… dando conselhos não só a divisões das autarquias locais, mas também aos cientistas da Califórnia fornecendo amostras de Portugal e de Espanha na tentativa de criar uma base de dados de DNA do bicho da palmeira – que, nos últimos 20 anos, tem vindo a tornar-se a maior peste mundial a afectar as palmeiras.
Como “aficionado” das palmeiras e das plantas exóticas, Lambe está em contacto permanente com associações botânicas, trocando sementes e informações, e, quando não está a trabalhar no seu próprio jardim encantado (“uma das minhas maiores emoções é fazer crescer coisas em diferentes ambientes”, conta), está atarefado a fazer pesquisas sobre “micro geração”, uma “prudente” iniciativa de Portugal para permitir aos seus cidadãos produzirem e venderem electricidade própria; bem como a fazer uma campanha geral pelo vegetarianismo, que defende ser a única solução para alimentar a sustentabilidade do mundo.
Considerando os interesses e as preocupações da maioria da população do Algarve (particularmente a comunidade estrangeira), o testemunho de Lambe não deixa de ser notável.
Mas como é que tudo começou? O que fez dele este guerreiro/ guru ambiental com um estilo próprio?
“Ahh!”, ri-se. “Essa é uma longa história! Desde sempre gostei da natureza, e Portugal deu-me o amor às plantas” (a família de Lambe mudou-se da Argentina para o Algarve há mais de 50 anos), e, embora ele tenha começado a sua vida a “ganhar pipas de massa” como arquitecto na América do Sul, cedo se apercebeu que o seu coração estava na preservação da natureza.
Começou por ser activista voluntário da organização de defesa ambiental, American Sierra Club (enquanto excercia arquitectura, design de estações espaciais e de paisagens em Nova Iorque), e foi trabalhar com várias organizações não governamentais americanas com o objectivo de mudar as políticas ambientais.
A cimeira do Rio em 1992 foi o seu “epitáfio” e que veio provar uma outra citação inspiradora que ele gosta particularmente:
“Jamais duvide que um pequeno grupo de cidadãos comprometidos e sensatos consiga mudar o mundo”. (Margaret Mead).
Foi a primeira vez na história em que a sociedade civil tomou parte na política mundial!”, recorda – embora como sempre, este entusiasmo inicial tenha dado lugar à frustração como resultado da “indiferença humana”.
“Existem pessoas que ajudam a construir a civilização; pessoas que lutam pelas causas em que acreditam – mas, infelizmente, existem muito poucas assim.
“O planeta, cuja saúde está dependente de nós, está seriamente em perigo. Estamos a consumir, a desperdiçar, a poluir e a destruir os recursos naturais a um ritmo sem precedentes. Pelo nosso futuro, dos nossos filhos e de todos os seres vivos, cabe a cada um de nós mudar não só os seus hábitos de vida, mas também o nosso modo de pensar”.
Uma tarefa difícil - mas para alguém que já encontrou mais de 10.000 soluções que não davam certo, isso nunca foi um problema…
António Lambe é responsável pela ONG “Acción Ambiental”, que promove projectos ambientais no Perú e em vários outros países.
O seu email de contacto é: Email








