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Vânia Beliz
Sexo sem problemas!

“Nós portugueses temos um imaginário erótico pobre. Pensamos pouco em sexo. Fantasiamos pouco, as mulheres principalmente. Temos a cultura que o sexo é uma coisa errada. Que não é correcto dizer pénis ou vagina. Continua a ser um tabu, um assunto incómodo”, diz a sexóloga Vânia Beliz.
Desde há três anos que se debate com esta herança cultural no seu consultório. “Quando comecei, pensei que iria tratar muitas disfunções. No caso do homem, a disfunção eréctil ou a ejaculação rápida. No caso da mulher, a dificuldade em ter prazer. Efectivamente, não é isso que mais me aparece. O que mais tenho são pessoas que querem esclarecer dúvidas sobre as suas práticas sexuais”, conta.
“Há muita informação sobre sexualidade que circula entre amigos, e que não corresponde à verdade”.
Na sua tese de mestrado «Estilos de masturbação feminina e orgasmo no coito», Vânia Beliz entrevistou 2527 mulheres portuguesas. Foi um trabalho pioneiro, orientado pelo professor Nuno Monteiro Pereira (conhecido médico urologista e sexólogo).
Apesar da maioria das que responderam terem habilitações superiores, e uma faixa etária relativamente jovem, “foi interessante perceber que foram 10 por cento de mulheres que não identificaram a zona clitoriana de forma correcta,, ainda que afirmem preferir como forma de auto-estimulação, a estimulação desta estrutura”.
Em relação a quem a procura, poucos vão a conselho do médico. A maioria vai “por iniciativa própria. A faixa etária mais frequente é a partir dos 30 anos para cima. “Recebo muitos casais naquela fase do advento do primeiro filho em que existe normalmente um resfriamento do relacionamento sexual”.
“90 por cento dos que me procuram são homens” - o que é curioso numa sociedade na qual o homem é considerado o sexo forte.
Às vezes, surgem “situações de homens com fetiches difíceis de resolver. Imagine o que é, se para você ter um orgasmo, a sua mulher tiver que usar sempre uma farda de enfermeira?”, exemplifica. Outros, mais velhos, procuram mais formas de satisfazer as parceiras (normalmente mais jovens).
Um problema frequente é “quando o homem falha uma vez, fica com uma grande insegurança. E quando falham, as mulheres também os bombardeiam. Antigamente não se queixavam, mas hoje as mulheres estão muito mais exigentes”.
Sinais dos tempos? “Antigamente a mulher quase não podia falar em satisfação. Era errado. Isso não era uma prioridade dentro do casal”. O sexo era apenas para procriação ou visto apenas para satisfação masculina. Uma obrigação marital.
Actualmente, “conhece alguma revista feminina hoje que não apele à satisfação sexual das mulheres?”, ironiza. “Temos algumas que chegam a incentivar a infidelidade!” como um caminho para o prazer.
“Quando questiono mulheres com dificuldade em atingir o orgasmo, pergunto-lhes como estimulam o seu desejo? Lendo um livro erótico? Vendo filmes? Repare, quando vamos às compras se passarmos por uma padaria e sentirmos o cheirinho do pão, apetece-nos comer. É óbvio que também temos de estimular o nosso desejo sexual, abrindo-lhe o apetite. Agora, se nem sequer pensarmos no assunto, não me parece que a vontade apareça de forma espontânea”...
Neste aspecto, a sexóloga não tem problemas em recomendar a pornografia de cineastas como a sueca Erika Lust (autora de «Five Hot Stories For Her» e «Barcelona Sex Project»), cujos filmes têm uma abordagem mais feminina.
“É muito diferente de ir ao youporn abrir um vídeo e ver um jardineiro que bate à porta e em segundos já está a enfiar o pénis em alguém”, explica.
Aliás, um aspecto curioso é que a sexóloga colabora com uma sex-shop, ou melhor, uma “loja sensual” on-line. “Imagine que me escreve a dizer que quer dar um presente à sua esposa.
Antes de lhe vender um vibrador, vou necessariamente ter de fazer algumas perguntas. Se ela prefere o sexo oral, aconselho um produto que se coloca no clitóris, que é lambido e sabe bem”, exemplifica. “Se as pessoas querem quebrar a rotina, não vão logo introduzir uma coisa nova na relação. Tem de haver algum cuidado na escolha dos brinquedos sexuais. Não vamos, por exemplo, introduzir um vibrador duplo num casal que é envergonhado.”
Ainda em relação à felicidade conjugal, Beliz aconselha que a intimidade dos casais deve ter limites. “Aquela coisa dos casais partilharem a casa de banho os dois ao mesmo tempo para mim não faz sentido. A mulher não precisa de tirar um tampão à frente do parceiro”, recomenda.
“Quando nos conhecemos inicialmente, parecemos sempre bonitos” aos olhos do outro. “Claro que depois começamos a ver os pêlos, os macacos do nariz. Há quem não concorde e diga que é bonito libertar flatulência dentro da cama. Mas acho que há coisas que não se partilham”, defende.
Vânia Beliz é apologista da educação sexual. A melhor idade para começar é quando “as crianças começam a mostrar interesse.”
Tem dado algumas palestras voluntariamente em escolas do Algarve, Alentejo e na zona de Lisboa. Fala sobre questões que os alunos querem “ver respondidas”. “Por exemplo, no primeiro ciclo, ainda querem saber como é que se fazem os bebés. Às vezes sabem que existem as sementinhas do pai e da mãe, mas não percebem onde é que aquilo vai parar”.
Então, por que motivo os pais não esclarecem os filhos? “Ainda temos a ideia de que se falarmos das coisas, estamos a incentivá-las”, diz. Mas a estratégia do silêncio continua a não resultar.
“Assistimos cada vez mais às miúdas muito erotizadas. Já é comum, uma miúda com 15 ou 16 anos dizer que é bissexual no seu hi5 e aparecer em imagens agarrada às amigas. Está na moda!”
Posição conservadora? “Não. Numa altura em que estamos a construir a nossa identidade sexual, podemos experimentar tudo. Mas não me parece um comportamento saudável partilhar isso nas redes sociais à frente de toda a gente”, diz. “Preocupa-me o exagero desenfreado, como se tudo fosse permitido e fácil”.
Beliz dá consultas em Vilamoura, numa clínica de medicina dentária, “precisamente para as pessoas estarem à vontade. Podem dizer que vão ao dentista, embora na realidade vão a uma consulta de sexologia”, diz. Afinal, o sexo ainda é um tabu…








