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Elísio Estanque

Classe média portuguesa está em risco de “implosão”

O sociólogo Elísio Estanque (FEUC/CES) lança esta semana o livro «A Classe Média: Ascensão e Declínio», editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos no âmbito da série “Ensaios da Fundação”.
Edição 714 ( 2 Fev 2012), Sem Comentários »

No ensaio, o investigador mostra como a sociedade portuguesa “em escassas dezenas de anos passou de predominantemente rural a marcadamente urbana”. Após os anos 1980, “Portugal entrou numa espécie de euforia política e económica”, empurrada pelos fundos da Comunidade Europeia.

A ânsia de se adoptarem padrões de vida europeus e o florescer do mercado do crédito, levaram ao crescimento muito rápido de uma classe média, que “agora se desmorona, de maneira igualmente rápida e abrupta, na sequência da crise e das medidas de austeridade”. Para Elísio Estanque, este declínio é imprevisível, já que “não estão a ser devidamente avaliados os custos, a médio prazo, de uma sociedade doente, incapaz de responder às necessidades do país”.

Além de proceder a uma síntese teórica, Elísio Estanque debruça-se sobre alguns dos aspetos históricos e sociológicos da sociedade portuguesa que lhe conferem contornos particulares, designadamente no que diz respeito à fragilidade da sua classe média.

A abordagem adotada visa, por um lado, contribuir para o esclarecimento do conceito de «classe média» – tendo em conta que o assunto ganhou em Portugal uma nova atualidade perante a crise estrutural e a austeridade que se vive no país e na Europa –, apresentando uma análise sociológica que se pretende acessível a cidadãos não especialistas; por outro lado, assume-se que o conhecimento sociológico só é verdadeiramente relevante se, em vez de se limitar a um olhar "neutro" e frio sobre a realidade, for capaz de conjugar o esforço de objectividade com o sentido crítico, rompendo com as ideias-feitas acerca do fenómeno em estudo e procurando compreendê-lo à luz do processo mais geral de mudança social.

O ensaio divide-se, assim, em duas partes: uma primeira parte, mais de sistematização teórica em torno do tema, com referência a diferentes correntes de pensamento sobre classes sociais e estratificação (marxismo e weberianismo); e uma segunda parte, mais centrada no caso português e nas suas especificidades, sinalizando processos e situações que ilustram aspetos da mentalidade, da cultura, das expetativas e subjetividades relacionadas com a realidade socioeconómica do país das últimas décadas, que explicam a fraca solidez de uma classe média hoje à beira do empobrecimento e as implicações sociais e políticas que daí se podem inferir.

Por fim, um outro aspeto que merece destaque prende-se com a situação da nova geração de jovens qualificados com formação superior – um segmento que integra a classe média assalariada – que hoje se confrontam com a precariedade e o desemprego, obrigados a recorrer à emigração (e até aconselhados a isso por governantes) ou a manifestar a sua indignação e protesto, engrossando os novos movimentos sociais.

A ameaça de implosão generalizada da classe média pode, portanto, com a ajuda da juventude e do ativismo do ciberespaço, dar lugar a um novo radicalismo sociopolítico, capaz de impor uma nova viragem nas democracias europeias.

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